E que tudo o mais vá pro inferno


A cada viagem que faço, colho alguma nova lição de vida, de relacionamento, de atitudes sociais. E, às vezes, de inautenticidade frontal.

No ônibus em que eu seguia, semana passada, uma enorme legenda avisava, lá em frente, por sobre a cabeça do motorista:

PROIBIDO FUMAR (decreto de lei 110)

Meus olhos bebiam aquele recado. Meus olhos não desgrudavam daquela legenda. Por quê... Porque, numa ironia gritante, a única pessoa daquele coletivo, que estava a infligir a Lei 110, era o próprio motorista.

Em três horas de viagem, vi-o acender nada menos que uma dúzia de cigarros. Fora os que ele deve ter fumado, enquanto tirei um soninho todo sacolejado pela precariedade do asfalto.

E a fumaça subia em volutas, envolvendo a tabuleta, onde todos os passageiros podiam ler o aviso: É PROIBIDO FUMAR.

No mesmo ônibus, uma segunda legenda dizia:

NÃO FALE COM O MOTORISTA

Outra ironia. Nosso motorista passou o tempo todo conversando ruidosamente com o cobrador. E com o próprio fiscal, na meã hora em que este permaneceu dentro do coletivo, conferindo a lista dos passageiros, assinando não sei que protocolos, fazendo tempo.

Ao desembarcar na rodoviária, senti  vontade de abordar o motorista infrator, apontando para ambas as legendas que encimavam sua cabeça. Por respeito ou delicadeza, fiquei apenas no desejo de fazê-lo.

Agradeci, sorri para ele e apanhei minha bagagem. Mais pesada do que a mala, doía-me a constatação da nossa fragilidade.

Somos tão incoerentes, meu Deus! Incorrigíveis infratores de avisos, advertências e recados do com senso! Códigos sociais existem..., no papel. Leis oportunas são baixadas. Mas nosso anseio de liberdade fala mais alto. Nossas tendências de infração gritam mais fortes.

Parece mesmo que o proibido tem sempre um gostinho que p lícito desconhece.

A doçura do “não faça isso, não faça, aquilo” nos encanta, enfeitiça e seduz.

Seguimos tão facilmente os nossos caprichos, construindo nossa vidinha, fabricando nossas verdades desligados de tudo o que nos rodeia. E despreocupados, racionalizando nossas multiformes infrações, bisamos Roberto Carlos:

- E que tudo o mais vá para o inferno...
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Sobre Hubner Braz

Criador, colunista e administrador do Pecador Confesso. Fascinado e apaixonado por DEUS!! Formado Bacharel em Teologia pela FATESP e F. Mêcanica pela FATEC-SP e Presbítero na A.D. Belem-Missão em Sorocaba, onde o Pastor Presidente é o Rev. Osmar José da Silva - CGADB, Tenho 1João 1:7-9 injetado na veia!.
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4 Milhões de Confessos:

  1. Parece que somos tendenciosos ao pecado e a transgressão desde sempre, semente adamica. Paulo é quem tinha razão: "Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?" Romanos 7:24. Só a graça de Deus para nos justificar e para não ir pro inferno, ou não vivermos um inferno aqui.

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  2. hubner, falta cidadania e educação para os brasileiros, infelizmente. mas cabe a nós, fazermos a nossa parte e contribuir para que a nossa sociedade evolua.

    abraços

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  3. ah, não entendi a foto da nara, não seria melhor uma foto do roberto carlos?

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  4. Dudu a foto é da Nara Leão, e faz parte do album que ela mesma lançou por nome "E Que Tudo Mais Va pro Inferno". O álbum faz o tributo aos compositores mais bem sucedidos do Brasil, Roberto Carlos e seu parceiro Erasmo Carlos.

    Hungs

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