2º CORÍNTIOS 5:21: TEOLOGIA - O ESTUDO DA SUBSTITUIÇÃO.


I - INTRODUÇÃO

            Esta pesquisa visa explicar, o texto de 2º Coríntios 5:21 onde Paulo descreve “ a mais profunda declaração sobre a obra de Cristo”[1] o processo da substituição. O texto em pauta mostra que “… Paulo agora resumiu a base de sua mensagem...” [2] nas seguintes palavras: “Aquele que não conheceu pecado, Ele o fez pecado por nós; para que, Nele fossemos feitos Justiça de Deus”. O texto enfoca três aspectos, que podem ser desenvolvidos da seguinte maneira:
  1. Impecabilidade de Cristo;
  2. Como Ele assumiu o nosso pecado, sem ter uma propensão para o mesmo;
  3. Como todo este processo desenvolve a nossa salvação.
Estas declarações serão analisadas procurando estabelecer como ponto inicial a explicação do termo pecado no texto, com intuito de enfatizar que Jesus era sem pecado e como veio assumir os nossos pecados, sem ter sido contaminado pelo mesmo.
A partir da análise da palavra pecado no grego (Hamartia), é evidente a aceitação da impecabilidade de Cristo, para que pudesse tornar-se o nosso substituto. Esta linha de pensamento é defendida por diversos autores. É evidente a necessidade de explorarmos bem este assunto, pois tem sido alvo de muitos debates e questionamentos, por parte de críticos. Após a investigação das duas declarações, será demonstrado como Jesus tornou-se o nosso substituto.
A pesquisa não tem como objetivo proposto uma exegese mais ampla de toda a perícope (versos 14-21), apesar de procurar estabelecer uma relação com estes versos, e sim explicar o significado do texto para a realidade da salvação. Portanto, será evidente após o estudo, que seria necessário um Salvador perfeito, pois só assim, o ser humano desfrutaria de toda a essência do plano da redenção. O texto de 2° Coríntios 5:21, pode ser divido em 3 partes:
1.      Aquele que não conheceu pecado;
2.      Ele o fez pecado por nós;
3.      Para que fossemos justiça de Deus.
Definem-se as três partes como Cristo sendo impecável, a forma que Ele assumiu os nossos pecados e como todo esse processo contribui para que Sua justiça seja imputada em nós. O texto apresenta o processo da substituição, pois é um “resumo do plano da salvação”.[3] Uma compreensão profunda do texto nos dará uma resposta, convincente, a seguinte pergunta: “Como foi o desenvolvimento em Cristo do processo da nossa salvação?”.

II –      AQUELE QUE NÃO CONHECEU PECADO
      O primeiro aspecto do verso está em mostrar a impossibilidade de o Senhor Jesus pecar. A declaração no verso 21 é de profundo significado em toda a Bíblia. Este verso resume o plano da salvação, declarando a absoluta impecabilidade de Cristo, a natureza vicária de Seu sacrifício, e a liberdade concedida ao homem do pecado a partir do próprio Cristo[4], pois “nesta terra viveu (Cristo), uma vida santa, incontaminada e pura, e sempre esteve consciente de estar em harmonia com o Pai”,[5] por isso “... nasceu sem pecado a fim de satisfazer nossa primeira necessidade dele como salvador, quando somos nascidos pecadores.” [6]  
O termo usado por Paulo para conhecer no Grego tem um sentido de alguém que adquiriu o conhecimento através do experimentar[7], pois “a tendência humana para desviar-se da ordem dada por Deus e estabelecer-se na sua própria posição, indo por seu próprio caminho, está profundamente arraigada no coração (Gn. 6:5; 8:21)”.[8] Por isso Jesus questionou aos Judeus, por não ter pecado, em João 8: 46, da seguinte maneira: “Quem dentre vós me convence de pecado? Se vos digo a verdade, por que não me credes?”.[9] Ele não tinha nenhum conhecimento pessoal e também não experimentou o pecado.[10]
            Paulo em 2 Coríntios 5:21 usa o termo no grego Hamartia.  Esta palavra é usada cerca de 60 vezes nas cartas de Paulo, e é definida no grego clássico como fracasso.[11] De acordo com alguns estudiosos, o texto é baseado em Isaias 53:10 onde é usada a expressão "oferta de pecado" (ḥaṭṭā˒ṯ ˒āšām) e este seria o pensamento implícito em ἁμαρτία (Hamartia).  Referem-se mais a natureza do ato. Aristóteles define como virtude ausente devido à fraqueza, acidente ou conhecimento defeituoso. Mais tarde, a culpa é associada ao termo[12]. Sendo assim,
“Deve ser notado que no Novo Testamento Hamartia não descreve um ato específico de pecado, descreve sim, o estado do pecado, a partir do qual surgem os atos do pecado... um poder maligno e pessoal que prende o homem em suas garras”. [13]

            O Novo Testamento, principalmente nos escritos de Paulo, é muito claro a definição de pecado, pois “tanto para os gentios como para os Judeus, a raiz do pecado não se encontra nos atos pecaminosos, mas numa vontade pervertida, rebelde”. [14] Ellen G. White diz que o pecado obscureceu a semelhança divina em nós,[15] e também destruiu o desejo do homem de conhecer a Deus,[16] dessa forma Cristo não poderia ter o pecado intrínseco em Si, ou seja, ter propensão ou vontade de pecar.[17]
“Pecado e morte mantém domínio sobre o homem caído. O pecado produziu uma insanidade radical na natureza do ser humano, a tal ponto que o homem tornou-se como um navio cujo leme está fixo, amarrado no ângulo errado... pecador no sentido de que nasceu com a tendência natural para escolher o pecado... O homem completo foi atingido e deteriorado no nível de sua vontade, sentimentos e razão. O pecado é um poder que domina a própria atmosfera no qual o homem vive.” [18]
Pecado não é o que somente o homem faz, e sim, o que ele é. Sendo assim Ele nunca cometeu pecado em palavras ou pensamentos. Em toda a sua vida Ele se manteve distante do pecado, em todos os sentidos. Aqui na terra Ele viveu uma vida santa, imaculada e pura, cada vez consciente de estar em harmonia com a vontade do Pai.[19]
O pecado reina no homem como um poder que ele não pode se libertar, já que “... não somos apenas imperfeitos, mas corrompidos pelo pecado” [20]; torna-o hostil, rebelde[21], malfeitor como também iníquo e corta a comunhão com Deus e torna-os ímpios.[22] O homem torna-se sujeito a ira divina, a caminho da destruição final no dia do juízo.[23] Se Cristo tivesse pecado em Sua natureza, mesmo sem desenvolver os atos pecaminosos[24], Ele não poderia ser o nosso Salvador, pois o sacrifício tem que ser puro e imaculado[25]. Ellen White, afirma:
“O homem não podia fazer expiação pelo homem. Sua condição pecaminosa e caída constituía uma oferta imperfeita, um sacrifício expiatório de menor valor que Adão antes de sua queda. Deus fez o homem perfeito e reto, e depois da sua transgressão ele não poderia oferecer sacrifício aceitável para Deus, a menos que a oferta apresentada fosse, em seu valor, superior ao homem em seu estado de perfeição e inocência”. [26]
Por este motivo Paulo foi enfático ao afirmar que Cristo não conheceu pecado, pois precisava ser perfeito para abrir o caminho da salvação. Um sacrifício perfeito e incontaminado, pois “é na morte substitutiva de Cristo que o pecado é vencido e a ira desviada”. [27]

III – ELE O FEZ PECADO POR NÓS
            Diz Ellen G. White:
“Não foi, porém, a lança atirada, não foi a dor da crucifixão, que produziu a morte de Jesus. Aquele grito soltado ‘com grande voz’ (Mateus 27:50 e João 23:46) no momento da morte, a corrente de sangue e água que lhe fluiu do lado, demonstravam que Ele morreu pela ruptura do coração. Partiu-se-lhe o coração pela angústia mental. Foi morto pelo pecado do mundo”. [28]
O texto analisado enfatiza que Jesus foi ‘feito pecado por nós’. Mas uma vez Paulo usa o termo Hamartia, para pecado. Se Ele não tinha Hamartia (pecado), ou seja, era impecável, sem propensões para poder se tornar o nosso Salvador, como Ele se tornou Hamartia (pecado) por nós?
            Cristo na verdade é um desafiador da maldição do pecado.[29] E sem dúvidas o ponto central do texto é a substituição. Todos os versos anteriores (2 Coríntios 5: 14 – 20), demonstra o ato da morte de Cristo, que nos torna-me novas criaturas, somos reconciliados,[30] conseqüentemente, no verso 19 ele afirma que Deus estava em Cristo, “... não imputando aos homens suas transgressões...”, ou seja, não posto na conta de[31], pois Ele nos reconciliou através de Sua morte.
            Jesus assumiu nossa natureza, sem assumir o pecado, neste caso, uma natureza pecaminosa:
“... Ele o fez pecado por nós... Essa frase fala antes de Sua total identificação com os pecadores, a fim de que possa ser reputado como um deles, já que se tornou o portador do pecado de todos eles. Tendo tomado a natureza deles, mas não a natureza de Adão antes da queda, ou alguma natureza angelical”. [32]
            Através deste fato, Woodron[33], sugere o termo identidade, Como a identificação de Cristo com o pecado, mesmo continuando sendo impecável. Desta forma Ele assumiu as nossas fraquezas ou as “terríveis conseqüências do pecado”. [34] A vida de Cristo foi de inteira renuncia e vitória sobre as tentações.[35] Quando Paulo diz que “Ele o fez pecado por nós”, não está afirmando que Jesus assumiu uma natureza com propensão ou desejo para o mal, porém, que Ele “sendo sem pecado e não tendo necessidade de morrer, sofreu a nossa morte, a morte que nossos pecados mereciam”.[36]
            Jesus levou os nossos pecados, sendo identificados conosco nas lutas contra as tentações. De acordo com Woodron[37], Ellen White descreve estes pensamentos nas seguintes palavras:
  • Ele tomou a humanidade para conhecer as fraquezas e tentações, assim ajudar o homem. [38]
  • “Ele tinha a razão, a consciência, a memória, à vontade e as afeições da alma humana, a qual estava unida com Sua natureza Divina”. [39]
  • “Sua natureza finita era pura e sem mancha”. E se uniu com a Divina proporcionando assim a vitória sobre as tentações. “Cristo tomou a nossa natureza caída, mas não corrompida... Aquele que é puro e incontaminado, o Príncipe da vida”. [40]
  • “Não deveria haver a menor dúvida com respeito à inexistência de pecaminosidade na natureza humana de Cristo”. [41]
  • “Quando Jesus tomou a natureza humana e assumiu a forma de um homem, Ele possuía todo o organismo humano. Suas necessidades eram as necessidades de um homem. Ele tinha necessidades físicas a serem supridas, cansaço físico a ser aliviado. Por meio de oração ao Pai, Ele estava sempre revigorado para Seus deveres e para as provações”. [42]
  • “Ele revestiu Sua divindade com a humanidade para que pudesse carregar todas as fraquezas e suportar todas as tentações da humanidade”. [43]
  • “Ele era incontaminado pela corrupção, um estranho ao pecado; contudo, orava, e freqüentemente com grande clamor e lágrimas. Orava por seus discípulos e por si mesmo, identificando-se assim com nossas necessidades, nossas fraquezas e nossas falhas, que são tão comuns a humanidade. Era um poderoso intercessor, não possuindo paixões de nossa natureza humana caída, mas rodeado das mesmas fraquezas, tentado em tudo como nós, Jesus suportou a agonia que requeria ajuda e apoio de Seu Pai”. [44]
Jesus se fez pecado por nós, no termo que levou os nossos pecados, com suas conseqüências, como também tentações[45], sem ser contaminado pelo mesmo.

IV – FOSSEMOS FEITOS JUSTIÇA DE DEUS
            Sua vida sem pecado e o levar os nossos pecados na Sua carne, sem ser contaminado por ele, morrendo assim na cruz, nos garante o penhor de Sua justiça. A cruz nos revela quatro aspectos importantes da Sua obra redentiva:
  1. Cristo morreu por nós;
  2. Cristo morreu para conduzir-nos a Deus – I Pedro 3:18;
  3. Cristo morreu por nossos pecados – I Coríntios 15:3; I Pedro 3:18; Hebreus 9:26 e 10:12; I João 1:7 e Apocalipse 1:5 e 6;
  4. Cristo sofreu a nossa morte – Romanos 6:23.[46]
Pode-se afirmar assim que:
“Entre todos os homens, Jesus foi o único que não conheceu pecado (2º Coríntios 5:21), e, portanto, sendo inocente, Ele não tinha que morrer. Sua morte não foi o resultado de Seu próprio pecado ou culpa; ela foi sofrida no lugar de outros, que eram culpados e mereciam morrer. Por causa de Sua morte merecida, os pecadores são libertados da condenação à morte e da experiência da Ira de Deus que eles grandemente merecem”. [47]
Sua vida e morte substitutiva[48] - porque Cristo viveu e morreu como o 2° Adão – nos garante Sua justiça que é uma declaração, que fomos perdoados e transformados. E nossa aceitação de Cristo traz a Sua obediência as nossas vidas[49], fazendo que vivamos para Deus (Romanos 6:11, 18 e 19), nos aproximemos Dele (Romanos 1: 16 e 17), sendo praticantes das boas obras (Tiago 2:21 – 25), no sentido de cumprir os estatutos Divinos, também pode significar a prática da piedade provenientes da Sua vida reta (Romanos 5:19), fome e sede de retidão[50].
A sua morte substitutiva garante-nos a libertação do pecado e dos prazeres do mundo. Paulo exprime essa idéia nas seguintes palavras: “Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo, logo já não sou eu quem vive mais Cristo vive em mim; e esse viver que agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a Si mesmo se entregou por mim”.[51] Ellen White, afirma:
“Sobre Cristo como nosso substituto e penhor, foi posta a iniqüidade de nós todos. Foi contado como transgressor a fim de que nos redimisse da condenação da lei. A culpa de todo descendente de Adão pesava-lhe a alma. A ira de Deus contra o pecado, a terrível manifestação de Seu desagrado por causa da iniqüidade, encheram de contaminação a alma de Seu Filho. O imaculado Filho de Deus pendia na cruz, a carne lacerada pelos açoites; aquelas mãos tantas vezes estendidas para abençoar, pregadas ao lenho… é por ti que o Filho de Deus consente em carregar esse fardo de culpa… ofereceu-se a Si mesmo na cruz em sacrifício, e tudo isso por amor de ti. Ele, o que leva sobre si os pecados, sofre a ira da justiça Divina…”.[52]
            A Sua vida e morte no lugar, do homem caído e pecador, garante-lhe a vitória, que foi conquistada na Cruz, na pessoa de Cristo Jesus, o Salvador do homem. O cristianismo tem como objetivo principal, não o ser semelhante a Cristo, e sim ter vida Nele, já que “... somos justos somente em Cristo, nunca em nós mesmos.” [53] Assim sendo “todos os seres humanos tem pecado e carecem ou – estão destituídos - da glória de Deus”. [54] Mas a aceitação pela fé do sacrifício expiatório do Mestre, por ser substitutivo, propicia ao homem o penhor da eternidade.

V – CONCLUSÃO
            A análise do texto em questão (2° Coríntios 5:21), mostra-nos algo importante para o desenvolvimento do plano da salvação, ou seja, Cristo tendo vida original, escolheu ser nosso substituto, assumindo assim os pecados do homem, mas sem ser contaminado por Ele. Consequentemente, Sua vida santa e sua morte substitutiva propiciam ao homem justiça e redenção, como também o direito á salvação. Em nenhum momento o texto dá margem para o pensamento de que o pecado fez parte da natureza moral do Senhor Jesus, apesar da insistência de alguns.[55]
            Por fim, fica evidente, que Ele teve uma identidade com os nossos pecados, em suas conseqüências físicas, levando sobre seu corpo, até a morte de cruz, sendo assim o substituto da raça humana.                                 
            “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu ao seu tempo pelos ímpios. Dificilmente morrerá alguém por um justo, embora alguém possa se animar a morrer pelo bom. Mas Deus prova o Seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo Seu sangue, seremos por Ele salvos da ira. Pois se nós, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela Sua vida. Não somente isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem agora alcançamos à reconciliação”. Romanos 5: 6 – 11. [56]
            A pergunta mais importante em relação ao texto é bem definida na seguinte expressão:
“Por isso Ele foi até o passo final da encarnação: ‘Aquele que não conheceu pecado, (Deus) o fez pecado por nós; para que, nele, fossemos feitos justiça de Deus’ 2 Coríntios 5:21.Porque Jesus fez isso? Só há uma resposta. E essa resposta tem uma só palavra: Amor. E o amor de Cristo ‘tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta’ I Coríntios 13:7”.[57]
            Esta vivência de amor que vem de Deus para nós, é que garante a salvação e redenção, a certeza de que, a cada momento o homem pode ter esperança de uma vida eterna.
Escrito por Marconi Lopes 
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Sobre Hubner Braz

Criador, colunista e administrador do Pecador Confesso. Fascinado e apaixonado por DEUS!! Formado Bacharel em Teologia pela FATESP e F. Mêcanica pela FATEC-SP e Presbítero na A.D. Belem-Missão em Sorocaba, onde o Pastor Presidente é o Rev. Osmar José da Silva - CGADB, Tenho 1João 1:7-9 injetado na veia!.
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