ORIENTAÇÃO PEDAGÓGICA Em Ezequiel 14 a 16, há 94 versos. Sugerimos começar a aula lendo, com os alunos, Ezequiel 14.1-23 (5a 7 min). A revis...
ORIENTAÇÃO PEDAGÓGICA
Em Ezequiel 14 a 16, há 94 versos. Sugerimos começar a aula lendo, com os alunos, Ezequiel 14.1-23 (5a 7 min). A revista funciona como guia de estudo e leitura complementar, mas não substitui a leitura da Bíblia. Professor(a), a lição de hoje aborda um tema crucial; a responsabilidade individual, Use a figura de Noé, Daniel e Jó para levar os alunos a compreender os limites da intercessão. Explique que, embora a intercessão seja valiosa, há momentos em que o juízo coletivo se torna inevitável devido à persistência no pecado, e nem mesmo os mais justos podem livrar uma nação rebelde e impenitente. Aproveite este ensino para reconhecer os perigos do pecado, que pode levar uma comunidade a um ponto sem retorno. Conclua a aula com um apelo para chamar todos ao arrependimento, reforçando que a fé e a justiça não são transferíveis; cada um deve assumir sua posição e responsabilidade pessoal diante de Deus.
OBJETIVOS
PARA COMEÇAR A AULA
Faça uma pergunta provocativa: “A fé dos pais pode salvar os filhos? É possível ‘pegar carona” na espiritualidade de outra pessoa”. Após ouvir algumas opiniões, apresente a lição de hoje como a resposta definitiva de Deus a essa questão. Explique que Deus mencionou três dos homens mais justos da história — Noé, Daniel e Jó — para ensinar uma lição poderosa sobre responsabilidade pessoal: cada um deve zelar por seu próprio testemunho diante dos homens para que não venha sobre si o juízo.
LEITURA ADICIONAL
TEXTO ÁUREO
“Ainda que estivesse no meio dela estes três homens, Noé, Daniel e Jó, eles, pela sua justiça, salvaria apenas a sua própria vida diz o Senhor Deus” Ez 14.14
Leitura Bíblica Com Todos
Ezequiel 14. 1-23
Verdade Prática
Noé, Daniel e Jó nos lembram que a presença ou intercessão dos outros, tem limitações e não substituem o arrependimento, obediência e relacionamento pessoal diante de Deus
COMENTARIO EXTRA
Comentário de Hubner Braz
Texto áureo: Ez 14.14
Ezequiel 14 trata de um ponto crucial da teologia bíblica: a limitação da intercessão alheia quando há idolatria não tratada e recusa em se arrepender. O capítulo une dois eixos que aparecem muito em Ezequiel:
- a santidade e justiça de Deus (Ele não “negocia” com o pecado), e
- a responsabilidade pessoal (cada um responde diante de Deus pela própria postura diante da revelação).
1) Contexto e fluxo do capítulo
- (14.1–5) Os anciãos buscam o profeta, mas com ídolos no coração.
- (14.6–11) Deus exige arrependimento real: abandonar ídolos e tropeços.
- (14.12–20) Mesmo os maiores “intercessores-modelo” não reverteriam certos juízos: cada um escaparia “pela sua justiça” apenas.
- (14.21–23) Quatro juízos severos podem vir; ainda assim, Deus preserva um remanescente para tornar claro que seus caminhos são justos.
2) Exegese e palavras-chave (hebraico)
A) Idolatria “interna” e consulta hipócrita (14.1–5)
- “anciãos” – זִקְנֵי (ziqnê): liderança comunitária/religiosa; gente que deveria guiar o povo, mas vem “consultar” com duplicidade.
- “ídolos” – גִּלּוּלִים (gillûlîm): termo intencionalmente depreciativo em Ezequiel, com ideia de “coisas imundas/repugnantes”. Ele não suaviza idolatria: é impureza espiritual.
- “puseram… no seu coração” – נָתְנוּ … עַל־לִבָּם (natnû… ‘al-libām): o problema não é só externo (imagens), mas lealdade interior.
- “tropeço da sua iniquidade” – מִכְשׁוֹל עֲוֹנָם (mikshōl ‘avōnām): mikshōl é “pedra de tropeço”, algo que derruba; ‘avon é culpa/iniquidade com peso moral. Ou seja: o pecado virou mecanismo de queda repetida.
Tese: eles querem “resposta profética” sem rendição do coração. Deus responde que não se deixa “consultar” por quem preserva ídolos.
B) O chamado ao arrependimento (14.6–11)
- “Convertei-vos” – שׁוּבוּ (shûvû): verbo central do arrependimento no AT: “voltar-se”, mudar direção.
- “desviai-vos dos vossos ídolos”: arrependimento bíblico não é só emoção; é rompimento prático.
- Deus afirma que tratará o idólatra de modo que ele sirva de “sinal/provérbio” (14.8). A pedagogia divina aqui é pública: o juízo expõe a seriedade do pecado para proteger o povo do autoengano.
Princípio pastoral: quem busca “orientação espiritual” sem abandonar o pecado está buscando legitimação religiosa, não transformação.
C) Noé, Daniel e Jó: justiça pessoal e limites da intercessão (14.12–20)
- “justiça” – צִדְקָה (tsidqāh): em Ezequiel, não é “perfeição sem pecado”, mas retidão pactual (vida alinhada com Deus).
- “livrariam” – נָצַל (nātsal): “arrancar, resgatar, livrar”. O texto repete: “livrariam apenas a sua própria vida”.
Por que esses três?
- Noé: preservado em juízo universal; representa fidelidade em geração corrupta.
- Jó: íntegro em sofrimento extremo; representa perseverança e temor de Deus.
- Daniel: justiça pública em ambiente pagão; representa fidelidade sob pressão política/imperial.
O ponto não é diminuir oração/intercessão; é estabelecer um limite: quando a sociedade endurece em idolatria e recusa arrependimento, Deus pode decretar juízo de tal forma que nem a presença dos mais justos “substitui” a resposta pessoal do culpado.
D) Os quatro juízos e o remanescente (14.21–23)
- quatro juízos (clássicos em Ezequiel):
- espada (guerra),
- fome,
- feras,
- peste.
Eles descrevem colapso total: segurança, economia, ambiente e saúde.
Mas Deus preserva um remanescente (14.22–23) para um propósito teológico: quando os sobreviventes forem vistos e suas condutas forem conhecidas, ficará evidente que o juízo não foi capricho divino, mas resposta justa à corrupção (“sabereis que não fiz sem causa”).
Princípio: Deus não perde o controle no juízo; Ele também preserva evidência moral da sua justiça.
3) Aplicação pessoal e para a igreja
- Intercessão não é atalho para impunidade.
A oração de terceiros é preciosa, mas não substitui arrependimento (shûv), obediência e comunhão pessoal. - Ídolos hoje nem sempre são imagens; são lealdades.
Quando algo ocupa o lugar de Deus (status, dinheiro, prazer, aprovação, poder), isso vira gillûlîm do coração. - Buscar “palavra” sem mudança é religião utilitária.
Ezequiel 14 denuncia a espiritualidade que quer conselho de Deus, mas mantém o “tropeço” intacto. - Justiça pessoal tem valor real, mas não “compra” a vida espiritual do outro.
Noé, Daniel e Jó ilustram que cada um precisa responder a Deus por si.
4) Tabela expositiva (Ez 14.1–23)
Seção
Texto
Tema
Palavra-chave
Ênfase teológica
Aplicação direta
1
14.1–5
Consulta hipócrita
gillûlîm (ídolos), mikshōl (tropeço)
Deus sonda o coração; religião sem rendição é engano
Examine “ídolos internos” antes de buscar direção
2
14.6–11
Chamado ao arrependimento
shûv (converter-se)
Arrependimento é volta + ruptura
Abandone práticas/lealdades que competem com Deus
3
14.12–20
Limites da intercessão
tsidqāh (justiça), nātsal (livrar)
Juízo pode ser irreversível; cada um responde por si
Não terceirize sua vida espiritual
4
14.21–23
Quatro juízos e remanescente
(espada/fome/feras/peste)
Justiça de Deus demonstrada publicamente
Confie na retidão de Deus mesmo em crises
Ezequiel 14 ensina que Deus não negocia com idolatria e que a fé não é herdada por proximidade (família, liderança, igreja). Noé, Daniel e Jó apontam para a beleza da retidão pessoal, mas também para uma verdade sóbria: ninguém é salvo “por procuração”. O caminho é sempre o mesmo: arrependimento, obediência e relacionamento pessoal com o Senhor.
Texto áureo: Ez 14.14
Ezequiel 14 trata de um ponto crucial da teologia bíblica: a limitação da intercessão alheia quando há idolatria não tratada e recusa em se arrepender. O capítulo une dois eixos que aparecem muito em Ezequiel:
- a santidade e justiça de Deus (Ele não “negocia” com o pecado), e
- a responsabilidade pessoal (cada um responde diante de Deus pela própria postura diante da revelação).
1) Contexto e fluxo do capítulo
- (14.1–5) Os anciãos buscam o profeta, mas com ídolos no coração.
- (14.6–11) Deus exige arrependimento real: abandonar ídolos e tropeços.
- (14.12–20) Mesmo os maiores “intercessores-modelo” não reverteriam certos juízos: cada um escaparia “pela sua justiça” apenas.
- (14.21–23) Quatro juízos severos podem vir; ainda assim, Deus preserva um remanescente para tornar claro que seus caminhos são justos.
2) Exegese e palavras-chave (hebraico)
A) Idolatria “interna” e consulta hipócrita (14.1–5)
- “anciãos” – זִקְנֵי (ziqnê): liderança comunitária/religiosa; gente que deveria guiar o povo, mas vem “consultar” com duplicidade.
- “ídolos” – גִּלּוּלִים (gillûlîm): termo intencionalmente depreciativo em Ezequiel, com ideia de “coisas imundas/repugnantes”. Ele não suaviza idolatria: é impureza espiritual.
- “puseram… no seu coração” – נָתְנוּ … עַל־לִבָּם (natnû… ‘al-libām): o problema não é só externo (imagens), mas lealdade interior.
- “tropeço da sua iniquidade” – מִכְשׁוֹל עֲוֹנָם (mikshōl ‘avōnām): mikshōl é “pedra de tropeço”, algo que derruba; ‘avon é culpa/iniquidade com peso moral. Ou seja: o pecado virou mecanismo de queda repetida.
Tese: eles querem “resposta profética” sem rendição do coração. Deus responde que não se deixa “consultar” por quem preserva ídolos.
B) O chamado ao arrependimento (14.6–11)
- “Convertei-vos” – שׁוּבוּ (shûvû): verbo central do arrependimento no AT: “voltar-se”, mudar direção.
- “desviai-vos dos vossos ídolos”: arrependimento bíblico não é só emoção; é rompimento prático.
- Deus afirma que tratará o idólatra de modo que ele sirva de “sinal/provérbio” (14.8). A pedagogia divina aqui é pública: o juízo expõe a seriedade do pecado para proteger o povo do autoengano.
Princípio pastoral: quem busca “orientação espiritual” sem abandonar o pecado está buscando legitimação religiosa, não transformação.
C) Noé, Daniel e Jó: justiça pessoal e limites da intercessão (14.12–20)
- “justiça” – צִדְקָה (tsidqāh): em Ezequiel, não é “perfeição sem pecado”, mas retidão pactual (vida alinhada com Deus).
- “livrariam” – נָצַל (nātsal): “arrancar, resgatar, livrar”. O texto repete: “livrariam apenas a sua própria vida”.
Por que esses três?
- Noé: preservado em juízo universal; representa fidelidade em geração corrupta.
- Jó: íntegro em sofrimento extremo; representa perseverança e temor de Deus.
- Daniel: justiça pública em ambiente pagão; representa fidelidade sob pressão política/imperial.
O ponto não é diminuir oração/intercessão; é estabelecer um limite: quando a sociedade endurece em idolatria e recusa arrependimento, Deus pode decretar juízo de tal forma que nem a presença dos mais justos “substitui” a resposta pessoal do culpado.
D) Os quatro juízos e o remanescente (14.21–23)
- quatro juízos (clássicos em Ezequiel):
- espada (guerra),
- fome,
- feras,
- peste.
Eles descrevem colapso total: segurança, economia, ambiente e saúde.
Mas Deus preserva um remanescente (14.22–23) para um propósito teológico: quando os sobreviventes forem vistos e suas condutas forem conhecidas, ficará evidente que o juízo não foi capricho divino, mas resposta justa à corrupção (“sabereis que não fiz sem causa”).
Princípio: Deus não perde o controle no juízo; Ele também preserva evidência moral da sua justiça.
3) Aplicação pessoal e para a igreja
- Intercessão não é atalho para impunidade.
A oração de terceiros é preciosa, mas não substitui arrependimento (shûv), obediência e comunhão pessoal. - Ídolos hoje nem sempre são imagens; são lealdades.
Quando algo ocupa o lugar de Deus (status, dinheiro, prazer, aprovação, poder), isso vira gillûlîm do coração. - Buscar “palavra” sem mudança é religião utilitária.
Ezequiel 14 denuncia a espiritualidade que quer conselho de Deus, mas mantém o “tropeço” intacto. - Justiça pessoal tem valor real, mas não “compra” a vida espiritual do outro.
Noé, Daniel e Jó ilustram que cada um precisa responder a Deus por si.
4) Tabela expositiva (Ez 14.1–23)
Seção | Texto | Tema | Palavra-chave | Ênfase teológica | Aplicação direta |
1 | 14.1–5 | Consulta hipócrita | gillûlîm (ídolos), mikshōl (tropeço) | Deus sonda o coração; religião sem rendição é engano | Examine “ídolos internos” antes de buscar direção |
2 | 14.6–11 | Chamado ao arrependimento | shûv (converter-se) | Arrependimento é volta + ruptura | Abandone práticas/lealdades que competem com Deus |
3 | 14.12–20 | Limites da intercessão | tsidqāh (justiça), nātsal (livrar) | Juízo pode ser irreversível; cada um responde por si | Não terceirize sua vida espiritual |
4 | 14.21–23 | Quatro juízos e remanescente | (espada/fome/feras/peste) | Justiça de Deus demonstrada publicamente | Confie na retidão de Deus mesmo em crises |
Ezequiel 14 ensina que Deus não negocia com idolatria e que a fé não é herdada por proximidade (família, liderança, igreja). Noé, Daniel e Jó apontam para a beleza da retidão pessoal, mas também para uma verdade sóbria: ninguém é salvo “por procuração”. O caminho é sempre o mesmo: arrependimento, obediência e relacionamento pessoal com o Senhor.
INTRODUÇÃO
Ezequiel 14 apresenta uma revelação solene: ainda que Noé, Daniel e Jó estivessem presentes em Jerusalém, eles só poderiam salvar a si mesmos. O texto destaca a responsabilidade pessoal diante de Deus e não anula o valor da presença e da intercessão, pois a Bíblia apresenta exemplos de intercessores como Abraão, Moisés, Samuel e Paulo. Contudo, em certas circunstâncias de juízo, Deus estabelece limites intransponíveis. Cada um responde por si diante de Deus.
I- NOÉ E A CORRUPÇÃO GERAL (14.12-14)
O primeiro bloco de Ezequiel 14 (versos 12-14) revela a seriedade do pecado nacional. O Senhor anuncia o juízo da fome sobre a terra, declarando que nem mesmo Noé poderia livrar a coletividade.
1- O juízo da fome (14.13) Filho do homem, quando uma terra pecar contra mim, cometendo graves transgressões, estenderei a mão contra ela, e tornarei instável o sustento do pão, e enviarei contra ela fome, e eliminarei dela homens e animais,
Neste versículo, vemos três elementos: a causa, o agente e a consequência. À causa é o pecado, descrito como “graves transgressões” — expressão que ressalta a profundidade da infidelidade. O agente é o próprio Deus, que declara: “estenderei a mão contra ela” A consequência é a fome, vista não apenas como tragédia natural, mas como disciplina pedagógica. À expressão “tornarei instável o sustento do pão” sugere o colapso da base de sobrevivência. Ainda que houvesse homens justos, como Noé, a sentença não seria revogada. Isso corrige a falsa segurança do povo, que confiava na presença de alguns piedosos como se fosse um escudo coletivo. O Senhor mostra que, quando a corrupção se torna estrutural, não há substituto para o arrependimento comunitário.
COMENTARIO EXTRA
Comentário de Hubner Braz
Ezequiel 14.12–14 é uma peça teológica de grande peso porque confronta uma ilusão recorrente: a ideia de que a presença de pessoas piedosas “cobre” a rebeldia estrutural de uma comunidade. O texto não nega a intercessão (a Bíblia está cheia dela), mas estabelece um princípio solene: quando o juízo de Deus é decretado diante de uma corrupção agravada e persistente, a justiça de poucos não substitui o arrependimento de muitos. A ênfase é a responsabilidade pessoal (tema forte em Ezequiel; cf. Ez 18), sem negar a dimensão comunitária do pecado e do juízo.
1) Introdução — responsabilidade pessoal e limites da intercessão
A afirmação de que Noé, Daniel e Jó “salvariam apenas a sua própria vida” (Ez 14.14) opera como antídoto contra a falsa segurança espiritual:
- Não é “por proximidade” com os santos (família, liderança, igreja) que alguém se mantém em paz com Deus.
- Não é “por tradição” que o povo se livra do juízo.
- Não é “por reputação” que a nação é absolvida.
Contudo, como você observou, o texto não anula a intercessão: Abraão (Gn 18), Moisés (Êx 32), Samuel (1Sm 7; 12), Paulo (Rm 9–10) demonstram que Deus ouve e usa intercessores. O que Ezequiel 14 faz é afirmar que há momentos em que Deus estabelece um limite judicial: não por falta de misericórdia, mas porque a comunidade se tornou pactualmente obstinada (rejeição crônica da Palavra).
Teologia do capítulo: a intercessão é real; a substituição do arrependimento, não.
2) I — NOÉ E A CORRUPÇÃO GERAL (Ez 14.12–14)
2.1 Estrutura do oráculo (v.13): causa → agente → consequência
O versículo 13 é construído em três movimentos:
- Causa: “quando uma terra pecar contra mim”
- Agente: “estenderei a mão contra ela”
- Consequência: “fome… eliminarei dela homens e animais”
Essa progressão mostra que a fome não é apresentada como acaso, mas como juízo pactual (cf. Lv 26; Dt 28). O foco não é meteorologia, mas teologia moral: Deus governa a história e disciplina a rebeldia.
2.2 Exegese e palavras-chave (hebraico)
a) “Quando uma terra pecar contra mim”
- חָטְאָה לִי (ḥāṭĕ’āh lî) – “pecar contra mim”.
O pecado não é apenas “erro social”; é ofensa teológica: quebra de lealdade ao Senhor.
b) “cometendo graves transgressões”
O texto hebraico expressa ideia de infidelidade agravada, frequentemente ligada a “traição” pactual:
- termos comuns no campo semântico de Ezequiel incluem מַעַל (ma‘al) (infidelidade/“traição”), e עָוֹן (‘āwōn) (iniquidade/culpa).
A ênfase é: não é deslize ocasional, mas rebeldia sistêmica.
c) “estenderei a mão contra ela”
- וְנָטִיתִי יָדִי (‘nātîtî yādî) – “estenderei minha mão”.
Expressão antropomórfica de ação interventiva de Deus, muitas vezes para juízo (Êx 7.5). Indica que o Senhor não é espectador; Ele é Juiz ativo.
d) “tornarei instável o sustento do pão”
- וְשָׁבַרְתִּי לָהּ מַטֵּה־לֶחֶם (wešābartî lāh matteh-leḥem)
Literalmente: “quebrarei o cajado do pão”.
Matteh (“cajado”, “apoio”, “sustentáculo”) sugere que o pão é o “suporte” básico da vida. “Quebrar o cajado do pão” é colapsar o que sustenta a sobrevivência: produção, distribuição, segurança alimentar. A expressão aparece em linguagem de aliança/juízo (Lv 26.26).
e) “enviarei fome… eliminarei homens e animais”
- רָעָב (rā‘āb) – fome.
- “homens e animais” mostra a abrangência do juízo: a crise atinge toda a ordem social e econômica.
📌 Leitura teológica: o juízo atinge não só indivíduos, mas o “ecossistema” da vida nacional — porque o pecado se tornou estrutural.
2.3 Por que Noé? O peso do exemplo
Noé é o paradigma do justo em uma geração universalmente corrompida (Gn 6.5–9). Mas observe a precisão: Noé, no dilúvio, foi salvo com sua família porque Deus determinou um meio pactual de preservação (a arca) e uma nova ordem. Em Ezequiel 14, o ponto é outro: a nação não pode terceirizar arrependimento.
- O justo tem valor diante de Deus.
- O justo pode interceder.
- Mas a justiça do justo não substitui a conversão do ímpio quando Deus decreta juízo.
Isso corrige a mentalidade do “escudo espiritual” (ex.: “tem gente santa aqui, então nada vai acontecer”). O texto afirma: santidade não é amuleto coletivo; é chamado à mudança.
3) Aplicações pessoais e comunitárias
1) Cuidado com “segurança por associação”
Fé não é contágio automático. A presença de líderes fiéis, pais piedosos ou uma igreja saudável não dispensa arrependimento pessoal.
2) A fome como colapso de “apoios”
A imagem de “quebrar o cajado do pão” alerta: Deus pode tocar justamente nos “pilares” que sustentam nossa autoconfiança (recursos, estabilidade, previsibilidade). A disciplina divina expõe onde estava nossa confiança.
3) Pecado estrutural exige resposta estrutural
Ezequiel não trata só de pecados individuais, mas de uma cultura de transgressão. Isso nos chama a:
- arrependimento pessoal real,
- correção comunitária,
- retorno à Palavra com obediência.
4) Intercessão tem propósito: conduzir ao arrependimento
Orar pelo povo não é “neutralizar consequências”, mas suplicar por misericórdia para que o povo volte (shûv). Quando a oração vira desculpa para manter o erro, ela perde seu sentido.
4) Tabela expositiva — Ez 14.12–14 (foco em 14.13)
Elemento do texto
Hebraico (chave)
Sentido exegético
Doutrina enfatizada
Aplicação prática
Causa: pecado contra Deus
ḥāṭā’ (“pecar”)
Infidelidade pactual
Deus é o referente moral
Rever lealdades do coração
Agravamento: transgressão grave
campo de ‘āwōn/ma‘al
Rebeldia sistêmica
Pecado pode se estruturar
Não normalizar o erro
Agente: mão de Deus
nātāh yād
Intervenção judicial
Deus governa a história
Humildade e temor santo
Juízo: quebra do sustento
šābar matteh-leḥem
Colapso do “apoio”
Disciplina pedagógica
Reordenar prioridades
Efeito: fome ampla
rā‘āb
Juízo abrangente
Deus julga visando verdade
Arrependimento comunitário
Limite: justiça do justo
“livrar apenas a si”
Sem substituição moral
Responsabilidade pessoal
Não terceirizar fé
Ez 14.12–14 ensina que, quando uma nação se endurece em infidelidade grave, Deus pode decretar juízo de modo que nem o exemplo de Noé reverta o destino coletivo. A mensagem não é desesperança, mas urgência: não existe substituto para arrependimento real. Deus chama cada pessoa e cada comunidade a abandonar a falsa segurança e voltar-se para Ele com obediência.
Ezequiel 14.12–14 é uma peça teológica de grande peso porque confronta uma ilusão recorrente: a ideia de que a presença de pessoas piedosas “cobre” a rebeldia estrutural de uma comunidade. O texto não nega a intercessão (a Bíblia está cheia dela), mas estabelece um princípio solene: quando o juízo de Deus é decretado diante de uma corrupção agravada e persistente, a justiça de poucos não substitui o arrependimento de muitos. A ênfase é a responsabilidade pessoal (tema forte em Ezequiel; cf. Ez 18), sem negar a dimensão comunitária do pecado e do juízo.
1) Introdução — responsabilidade pessoal e limites da intercessão
A afirmação de que Noé, Daniel e Jó “salvariam apenas a sua própria vida” (Ez 14.14) opera como antídoto contra a falsa segurança espiritual:
- Não é “por proximidade” com os santos (família, liderança, igreja) que alguém se mantém em paz com Deus.
- Não é “por tradição” que o povo se livra do juízo.
- Não é “por reputação” que a nação é absolvida.
Contudo, como você observou, o texto não anula a intercessão: Abraão (Gn 18), Moisés (Êx 32), Samuel (1Sm 7; 12), Paulo (Rm 9–10) demonstram que Deus ouve e usa intercessores. O que Ezequiel 14 faz é afirmar que há momentos em que Deus estabelece um limite judicial: não por falta de misericórdia, mas porque a comunidade se tornou pactualmente obstinada (rejeição crônica da Palavra).
Teologia do capítulo: a intercessão é real; a substituição do arrependimento, não.
2) I — NOÉ E A CORRUPÇÃO GERAL (Ez 14.12–14)
2.1 Estrutura do oráculo (v.13): causa → agente → consequência
O versículo 13 é construído em três movimentos:
- Causa: “quando uma terra pecar contra mim”
- Agente: “estenderei a mão contra ela”
- Consequência: “fome… eliminarei dela homens e animais”
Essa progressão mostra que a fome não é apresentada como acaso, mas como juízo pactual (cf. Lv 26; Dt 28). O foco não é meteorologia, mas teologia moral: Deus governa a história e disciplina a rebeldia.
2.2 Exegese e palavras-chave (hebraico)
a) “Quando uma terra pecar contra mim”
- חָטְאָה לִי (ḥāṭĕ’āh lî) – “pecar contra mim”.
O pecado não é apenas “erro social”; é ofensa teológica: quebra de lealdade ao Senhor.
b) “cometendo graves transgressões”
O texto hebraico expressa ideia de infidelidade agravada, frequentemente ligada a “traição” pactual:
- termos comuns no campo semântico de Ezequiel incluem מַעַל (ma‘al) (infidelidade/“traição”), e עָוֹן (‘āwōn) (iniquidade/culpa).
A ênfase é: não é deslize ocasional, mas rebeldia sistêmica.
c) “estenderei a mão contra ela”
- וְנָטִיתִי יָדִי (‘nātîtî yādî) – “estenderei minha mão”.
Expressão antropomórfica de ação interventiva de Deus, muitas vezes para juízo (Êx 7.5). Indica que o Senhor não é espectador; Ele é Juiz ativo.
d) “tornarei instável o sustento do pão”
- וְשָׁבַרְתִּי לָהּ מַטֵּה־לֶחֶם (wešābartî lāh matteh-leḥem)
Literalmente: “quebrarei o cajado do pão”.
Matteh (“cajado”, “apoio”, “sustentáculo”) sugere que o pão é o “suporte” básico da vida. “Quebrar o cajado do pão” é colapsar o que sustenta a sobrevivência: produção, distribuição, segurança alimentar. A expressão aparece em linguagem de aliança/juízo (Lv 26.26).
e) “enviarei fome… eliminarei homens e animais”
- רָעָב (rā‘āb) – fome.
- “homens e animais” mostra a abrangência do juízo: a crise atinge toda a ordem social e econômica.
📌 Leitura teológica: o juízo atinge não só indivíduos, mas o “ecossistema” da vida nacional — porque o pecado se tornou estrutural.
2.3 Por que Noé? O peso do exemplo
Noé é o paradigma do justo em uma geração universalmente corrompida (Gn 6.5–9). Mas observe a precisão: Noé, no dilúvio, foi salvo com sua família porque Deus determinou um meio pactual de preservação (a arca) e uma nova ordem. Em Ezequiel 14, o ponto é outro: a nação não pode terceirizar arrependimento.
- O justo tem valor diante de Deus.
- O justo pode interceder.
- Mas a justiça do justo não substitui a conversão do ímpio quando Deus decreta juízo.
Isso corrige a mentalidade do “escudo espiritual” (ex.: “tem gente santa aqui, então nada vai acontecer”). O texto afirma: santidade não é amuleto coletivo; é chamado à mudança.
3) Aplicações pessoais e comunitárias
1) Cuidado com “segurança por associação”
Fé não é contágio automático. A presença de líderes fiéis, pais piedosos ou uma igreja saudável não dispensa arrependimento pessoal.
2) A fome como colapso de “apoios”
A imagem de “quebrar o cajado do pão” alerta: Deus pode tocar justamente nos “pilares” que sustentam nossa autoconfiança (recursos, estabilidade, previsibilidade). A disciplina divina expõe onde estava nossa confiança.
3) Pecado estrutural exige resposta estrutural
Ezequiel não trata só de pecados individuais, mas de uma cultura de transgressão. Isso nos chama a:
- arrependimento pessoal real,
- correção comunitária,
- retorno à Palavra com obediência.
4) Intercessão tem propósito: conduzir ao arrependimento
Orar pelo povo não é “neutralizar consequências”, mas suplicar por misericórdia para que o povo volte (shûv). Quando a oração vira desculpa para manter o erro, ela perde seu sentido.
4) Tabela expositiva — Ez 14.12–14 (foco em 14.13)
Elemento do texto | Hebraico (chave) | Sentido exegético | Doutrina enfatizada | Aplicação prática |
Causa: pecado contra Deus | ḥāṭā’ (“pecar”) | Infidelidade pactual | Deus é o referente moral | Rever lealdades do coração |
Agravamento: transgressão grave | campo de ‘āwōn/ma‘al | Rebeldia sistêmica | Pecado pode se estruturar | Não normalizar o erro |
Agente: mão de Deus | nātāh yād | Intervenção judicial | Deus governa a história | Humildade e temor santo |
Juízo: quebra do sustento | šābar matteh-leḥem | Colapso do “apoio” | Disciplina pedagógica | Reordenar prioridades |
Efeito: fome ampla | rā‘āb | Juízo abrangente | Deus julga visando verdade | Arrependimento comunitário |
Limite: justiça do justo | “livrar apenas a si” | Sem substituição moral | Responsabilidade pessoal | Não terceirizar fé |
Ez 14.12–14 ensina que, quando uma nação se endurece em infidelidade grave, Deus pode decretar juízo de modo que nem o exemplo de Noé reverta o destino coletivo. A mensagem não é desesperança, mas urgência: não existe substituto para arrependimento real. Deus chama cada pessoa e cada comunidade a abandonar a falsa segurança e voltar-se para Ele com obediência.
2- Noé andava com Deus (Gn 6.9) Eis a história de Noé. Noé era homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos;
Noé andava com Deus. Noé é exemplo de fidelidade em meio à corrupção generalizada. Ele não foi moldado pela cultura de sua geração, mas permaneceu íntegro diante do Senhor. Sua comunhão constante com Deus se traduziu em obediência prática, como se vê na construção da arca (Gn 6.22). Essa integridade preservou sua família, mas não foi capaz de impedir o juízo universal do dilúvio. O testemunho de Noé evidencia que a salvação é pessoal: sua fé o justificou, mas não salvou a geração incrédula. É justamente esse ponto que Ezequiel retoma: em Jerusalém, a presença de homens santos não bastaria para impedir o castigo sobre uma cidade inteira que havia se entregado à idolatria e à traição da aliança.
3- A limitação de Noé (14.14) Ainda que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel e Jó, eles, pela sua justiça, salvariam apenas a sua própria vida, diz o Senhor Deus.
O ensino é repetido para fixar a verdade: o justo só livra a si mesmo. A menção a Noé, Daniel e Jó mostra que nem mesmo os mais fiéis poderiam salvar o povo. Aqui encontramos um limite estabelecido por Deus: em determinadas circunstâncias, a presença e intercessão não são aceitas para mudar o decreto. Abraão intercedeu por Sodoma, Moisés pelo Israel rebelde, e ambos foram parcialmente ouvidos. Mas em Ezequiel 14, 0 povo já havia passado do ponto de retorno. O exemplo de Noé deixa claro que, quando a rebeldia é coletiva e persistente, a justiça de um não se transfere aos demais. Cada indivíduo é chamado a assumir sua responsabilidade diante de Deus, e cada comunidade precisa reconhecer sua culpa e se arrepender. A obediência de Noé trouxe livramento para seus filhos e esposa. Contudo, a salvação não foi automática: sua família precisou entrar na arca. Assim também hoje, cada pessoa precisa decidir-se por Cristo, o verdadeiro Salvador.
COMENTARIO EXTRA
Comentário de Hubner Braz
Ezequiel 14 não nega a realidade da intercessão (Abraão, Moisés, Samuel etc.), mas estabelece um ponto forense/pactual: quando uma comunidade persiste em infidelidade estrutural, Deus pode decretar juízo de tal forma que a justiça de poucos não funciona como “escudo coletivo”. É por isso que Noé aparece como paradigma: ele foi justo numa geração corrupta, mas sua retidão não “converteu” o mundo; ela o preservou pela fé e obediência, enquanto o juízo atingiu os incrédulos.
1) “Noé andava com Deus” (Gn 6.9): exegese e teologia
1.1 Termos hebraicos-chave em Gn 6.9
O versículo descreve Noé com três marcas:
- “justo” — צַדִּיק (tsaddîq)Não é impecabilidade, mas retidão diante de Deus (conformidade pactual).
- “íntegro/perfeito” — תָּמִים (tāmîm)Ideia de inteireza, “sem fissuras”, integridade moral (não duplicidade).
- “andava com Deus” — הָלַךְ (hālak) … “com” (עִם / אֶת)O verbo הָלַךְ (hālak) é o “andar” existencial (conduta contínua).A expressão “andar com” tem nuance de proximidade relacional; a nota do NET observa que a construção pode denotar “viver em estreita proximidade / manter relações cordiais”, por metonímia, comunhão contínua.
➡️ Teologia: “andar com Deus” é mais do que devoção privada: é um estilo de vida de aliança—presença + obediência.
1.2 Noé: fé que se traduz em obediência
A narrativa do dilúvio é didática: Noé é preservado porque crê e obedece (construção da arca; entrada na arca). A retidão dele não removeu a culpa do mundo; apenas o colocou do lado da obediência.
Isso prepara exatamente o argumento de Ezequiel: justiça autêntica existe, mas não é transferível como “mérito” para cancelar a rebeldia dos que persistem em idolatria.
2) “Pela sua justiça salvariam apenas a sua própria vida” (Ez 14.14): exegese
2.1 Termos e ênfases do texto
Em Ez 14.14, a fórmula é repetida para fixar o princípio:
- “pela sua justiça” (hebr. ṣidqātām, campo de צְדָקָה / צֶדֶק): retidão real diante de Deus.
- “salvar/livrar”: o texto hebraico frequentemente usa o campo de נצל (nāṣal), “arrancar/livrar”; aqui o ponto é: o alcance do livramento é pessoal.
O próprio versículo em traduções correntes explicita: “poderiam salvar apenas a si mesmos por sua justiça.”
Princípio teológico: a justiça do justo não funciona como “moeda substitutiva” para a impenitência alheia quando Deus decreta juízo judicial.
3) Opiniões de obras acadêmicas cristãs (síntese crítica)
3.1 A tríade Noé–Daniel–Jó como “paradigmas internacionais de justiça”
Um ponto muito explorado na pesquisa acadêmica é que Ezequiel escolhe exemplos de justiça reconhecidos para além de Israel (Noé e Jó são claramente figuras “universais” da tradição bíblica). C. A. Strine argumenta que a tríade pode funcionar como “paradigmas não-israelitas de justiça”, em contraste com apelos identitários automáticos (p.ex., “somos povo da aliança, logo estamos seguros”), reforçando a crítica de Ezequiel à falsa segurança.
3.2 Função retórica: “nem os melhores evitariam o juízo decretado”
O estudo de J. A. Davidson sobre Ez 14.14/20 destaca o peso do refrão: mesmo com esses “gigantes” de retidão presentes, o livramento seria restrito a eles mesmos, sublinhando o caráter inegociável do juízo em certos cenários de infidelidade persistente.
3.3 Ezequiel e o tema da responsabilidade pessoal
A maioria dos comentadores acadêmicos reconhece Ez 14 como parte do grande tema de Ezequiel: responsabilidade individual diante de Deus (que depois aparece de modo concentrado em Ez 18). Nesse sentido, comentaristas de referência (como Daniel I. Block, NICOT) são frequentemente indicados em bibliografias acadêmicas de Ezequiel por sua ênfase na teologia do livro e leitura pactual do profeta.
Resultado: Ezequiel não está “diminuindo a oração”, mas combatendo a terceirização da vida espiritual.
4) Aplicação pessoal e pastoral (sem perder o rigor)
- Não existe “salvação por procuração”.A fé de Noé não salvou a geração incrédula; salvou Noé e os que entraram na arca. A presença de santos não substitui arrependimento.
- “Andar com Deus” é o antídoto contra ser moldado pela cultura.Noé não foi “anti-cultura” por estética; foi pactualmente fiel quando a cultura virou corrupção.
- Em tempos de juízo, a pergunta muda:não é “quem está conosco?”, mas “como estamos diante de Deus?”.
- Cristo é o cumprimento maior do padrão (sem confundir categorias).Noé não “transferiu justiça” ao mundo; mas Jesus, o Justo, é o único que salva “outros” por uma justiça que não é meramente exemplar, e sim substitutiva e redentora (Rm 5). Isso não contradiz Ez 14: pelo contrário, mostra que apenas Deus pode prover um Salvador.
5) Tabela expositiva (Gn 6.9 + Ez 14.14)
Texto
Expressão
Termo original
Sentido teológico
Ênfase para a classe
Gn 6.9
“Noé era justo”
צַדִּיק (tsaddîq)
retidão pactual
santidade em geração corrupta
Gn 6.9
“íntegro”
תָּמִים (tāmîm)
inteireza, sem duplicidade
caráter consistente
Gn 6.9
“andava com Deus”
הָלַךְ (hālak) + construção “com”
comunhão contínua / proximidade
devoção que vira obediência
Ez 14.14
“pela sua justiça”
campo de צדקה (ṣĕdāqâ)
justiça real, não transferível
fé não é herdada
Ez 14.14
“salvariam apenas a si”
fórmula repetida
limite da intercessão em juízo decretado
responsabilidade pessoal diante de Deus
Noé ensina que é possível andar com Deus quando todos andam contra Deus; Ezequiel ensina que, quando a rebeldia se torna coletiva e persistente, a justiça de poucos não substitui a conversão de muitos. O chamado, então, é direto: arrependimento pessoal, obediência concreta e comunhão real com o Senhor—sem terceirizar a vida espiritual.
Ezequiel 14 não nega a realidade da intercessão (Abraão, Moisés, Samuel etc.), mas estabelece um ponto forense/pactual: quando uma comunidade persiste em infidelidade estrutural, Deus pode decretar juízo de tal forma que a justiça de poucos não funciona como “escudo coletivo”. É por isso que Noé aparece como paradigma: ele foi justo numa geração corrupta, mas sua retidão não “converteu” o mundo; ela o preservou pela fé e obediência, enquanto o juízo atingiu os incrédulos.
1) “Noé andava com Deus” (Gn 6.9): exegese e teologia
1.1 Termos hebraicos-chave em Gn 6.9
O versículo descreve Noé com três marcas:
- “justo” — צַדִּיק (tsaddîq)Não é impecabilidade, mas retidão diante de Deus (conformidade pactual).
- “íntegro/perfeito” — תָּמִים (tāmîm)Ideia de inteireza, “sem fissuras”, integridade moral (não duplicidade).
- “andava com Deus” — הָלַךְ (hālak) … “com” (עִם / אֶת)O verbo הָלַךְ (hālak) é o “andar” existencial (conduta contínua).A expressão “andar com” tem nuance de proximidade relacional; a nota do NET observa que a construção pode denotar “viver em estreita proximidade / manter relações cordiais”, por metonímia, comunhão contínua.
➡️ Teologia: “andar com Deus” é mais do que devoção privada: é um estilo de vida de aliança—presença + obediência.
1.2 Noé: fé que se traduz em obediência
A narrativa do dilúvio é didática: Noé é preservado porque crê e obedece (construção da arca; entrada na arca). A retidão dele não removeu a culpa do mundo; apenas o colocou do lado da obediência.
Isso prepara exatamente o argumento de Ezequiel: justiça autêntica existe, mas não é transferível como “mérito” para cancelar a rebeldia dos que persistem em idolatria.
2) “Pela sua justiça salvariam apenas a sua própria vida” (Ez 14.14): exegese
2.1 Termos e ênfases do texto
Em Ez 14.14, a fórmula é repetida para fixar o princípio:
- “pela sua justiça” (hebr. ṣidqātām, campo de צְדָקָה / צֶדֶק): retidão real diante de Deus.
- “salvar/livrar”: o texto hebraico frequentemente usa o campo de נצל (nāṣal), “arrancar/livrar”; aqui o ponto é: o alcance do livramento é pessoal.
O próprio versículo em traduções correntes explicita: “poderiam salvar apenas a si mesmos por sua justiça.”
Princípio teológico: a justiça do justo não funciona como “moeda substitutiva” para a impenitência alheia quando Deus decreta juízo judicial.
3) Opiniões de obras acadêmicas cristãs (síntese crítica)
3.1 A tríade Noé–Daniel–Jó como “paradigmas internacionais de justiça”
Um ponto muito explorado na pesquisa acadêmica é que Ezequiel escolhe exemplos de justiça reconhecidos para além de Israel (Noé e Jó são claramente figuras “universais” da tradição bíblica). C. A. Strine argumenta que a tríade pode funcionar como “paradigmas não-israelitas de justiça”, em contraste com apelos identitários automáticos (p.ex., “somos povo da aliança, logo estamos seguros”), reforçando a crítica de Ezequiel à falsa segurança.
3.2 Função retórica: “nem os melhores evitariam o juízo decretado”
O estudo de J. A. Davidson sobre Ez 14.14/20 destaca o peso do refrão: mesmo com esses “gigantes” de retidão presentes, o livramento seria restrito a eles mesmos, sublinhando o caráter inegociável do juízo em certos cenários de infidelidade persistente.
3.3 Ezequiel e o tema da responsabilidade pessoal
A maioria dos comentadores acadêmicos reconhece Ez 14 como parte do grande tema de Ezequiel: responsabilidade individual diante de Deus (que depois aparece de modo concentrado em Ez 18). Nesse sentido, comentaristas de referência (como Daniel I. Block, NICOT) são frequentemente indicados em bibliografias acadêmicas de Ezequiel por sua ênfase na teologia do livro e leitura pactual do profeta.
Resultado: Ezequiel não está “diminuindo a oração”, mas combatendo a terceirização da vida espiritual.
4) Aplicação pessoal e pastoral (sem perder o rigor)
- Não existe “salvação por procuração”.A fé de Noé não salvou a geração incrédula; salvou Noé e os que entraram na arca. A presença de santos não substitui arrependimento.
- “Andar com Deus” é o antídoto contra ser moldado pela cultura.Noé não foi “anti-cultura” por estética; foi pactualmente fiel quando a cultura virou corrupção.
- Em tempos de juízo, a pergunta muda:não é “quem está conosco?”, mas “como estamos diante de Deus?”.
- Cristo é o cumprimento maior do padrão (sem confundir categorias).Noé não “transferiu justiça” ao mundo; mas Jesus, o Justo, é o único que salva “outros” por uma justiça que não é meramente exemplar, e sim substitutiva e redentora (Rm 5). Isso não contradiz Ez 14: pelo contrário, mostra que apenas Deus pode prover um Salvador.
5) Tabela expositiva (Gn 6.9 + Ez 14.14)
Texto | Expressão | Termo original | Sentido teológico | Ênfase para a classe |
Gn 6.9 | “Noé era justo” | צַדִּיק (tsaddîq) | retidão pactual | santidade em geração corrupta |
Gn 6.9 | “íntegro” | תָּמִים (tāmîm) | inteireza, sem duplicidade | caráter consistente |
Gn 6.9 | “andava com Deus” | הָלַךְ (hālak) + construção “com” | comunhão contínua / proximidade | devoção que vira obediência |
Ez 14.14 | “pela sua justiça” | campo de צדקה (ṣĕdāqâ) | justiça real, não transferível | fé não é herdada |
Ez 14.14 | “salvariam apenas a si” | fórmula repetida | limite da intercessão em juízo decretado | responsabilidade pessoal diante de Deus |
Noé ensina que é possível andar com Deus quando todos andam contra Deus; Ezequiel ensina que, quando a rebeldia se torna coletiva e persistente, a justiça de poucos não substitui a conversão de muitos. O chamado, então, é direto: arrependimento pessoal, obediência concreta e comunhão real com o Senhor—sem terceirizar a vida espiritual.
II- DANIEL E AS FERAS (14.15-18)
O segundo bloco de Ezequiel 14 apresenta um cenário diferente do primeiro. Se antes o juízo vinha pela fome, agora é a própria terra que se torna inabitável por causa da ação das feras. Nesse contexto, o Senhor evoca a figura de Daniel como exemplo de fidelidade inquebrantável, mas deixa claro que nem ele poderia livrar o povo da desolação decretada.
1- O juízo das feras (14.15) Se eu fizer passar pela terra bestas-feras, e elas a assolarem, que fique assolada, e ninguém possa passar por ela por causa das feras.
O versículo descreve um cenário de destruição que vai além da fome. Deus fala de feras perversas percorrendo a terra e tornando-a desolada. O espaço que deveria servir de abrigo e sustento para o homem torna-se hostil e perigoso. A ideia de “não poder passar por causa das feras” mostra uma inversão da ordem criada: em Gênesis, o homem recebeu autoridade sobre os animais, mas aqui vemos os animais dominando o território e impedindo o trânsito humano. Esse detalhe ressalta a profundidade do juízo divino. O pecado humano rompe o equilíbrio da criação e produz efeitos em toda a ordem natural, Não é apenas a vida das pessoas que está em risco, mas a própria habitabilidade da terra. Quando a idolatria e a injustiça se instalam em uma sociedade, até o ambiente físico sofre as consequências, lembrando Romanos 8, no qual Paulo afirma que a criação geme por causa do pecado humano.
COMENTARIO EXTRA
Comentário de Hubner Braz
II — Daniel e as feras (Ez 14.15–18)
Este segundo bloco de Ezequiel amplia o argumento iniciado com Noé: o profeta descreve um tipo distinto de juízo — o envio de feras selvagens que tornam a terra inabitável — e reafirma o mesmo princípio: nem mesmo a presença de um justo exemplar (Daniel) reverteria o decreto divino em certas circunstâncias de rebeldia coletiva.
Aqui, a teologia de Ezequiel articula dois eixos fundamentais:
1️⃣ A desordem moral produz desordem cósmica
2️⃣ A responsabilidade pessoal não é anulada por figuras espiritualmente exemplares
1) Exegese do juízo das feras (Ez 14.15)
1.1 Termos hebraicos relevantes
🔎 “bestas-feras”
- חַיָּה רָעָה (ḥayyāh rā‘āh)
- ḥayyāh: animal selvagem
- rā‘āh: mau/perigoso/destrutivo
➡️ Não são apenas animais neutros — a expressão descreve forças hostis que causam devastação.
Essa categoria aparece também nas maldições da aliança (Lv 26.22), mostrando que o juízo de Ezequiel está ancorado no padrão pactual mosaico.
🔎 “assolarem”
- שִׁכְּלוּ (shikkĕlû)
Conota privar, devastar, tornar estéril, até mesmo causar perda de filhos/vida.
➡️ O efeito não é só medo — é colapso social e populacional.
🔎 “desolada”
- שְׁמָמָה (shemāmāh)
Palavra forte em literatura profética: ruína, abandono, devastação completa.
➡️ Denota terra funcionalmente inutilizável.
🔎 “ninguém possa passar”
Expressa interrupção de rotas e circulação — linguagem típica de colapso civilizacional.
➡️ O território deixa de cumprir sua vocação de habitat humano.
2) Teologia da inversão da ordem criada
Você captou um ponto central:
em Gênesis, o homem recebe domínio sobre a criação (Gn 1.28), mas aqui vemos o contrário.
Isso revela um padrão bíblico:
- Pecado humano → ruptura da harmonia criacional
- A criação participa do drama moral humano
Essa ideia é confirmada no Novo Testamento:
- Rm 8.20–22 — criação sujeita à frustração, gemendo
- O colapso ambiental/animal em Ez 14 é sinal teológico, não apenas natural
📌 O juízo mostra que o pecado não é apenas pessoal:
ele possui dimensão ecológica, social e cósmica.
3) Daniel como paradigma de fidelidade
Embora Daniel não seja explicitamente mencionado neste versículo, ele aparece no conjunto (14.14, 20). A escolha dele é teologicamente significativa:
Por que Daniel?
- Fidelidade em ambiente pagão
- Integridade política e espiritual
- Resistência à assimilação cultural
Ele representa:
➡️ Justiça em contexto hostil
Mas o texto afirma:
Nem mesmo essa fidelidade exemplar poderia impedir o juízo coletivo decretado
Isso reforça:
- Justiça pessoal ≠ imunidade coletiva
- Santidade exemplar ≠ substituição do arrependimento comunitário
4) Aplicação pessoal e eclesial
✔️ 1 — O pecado afeta mais do que a alma
Afeta relações
Afeta sociedade
Afeta ambiente
O texto alerta contra espiritualidade individualista que ignora consequências coletivas.
✔️ 2 — Não confiar na “presença dos fiéis”
Uma igreja pode ter homens e mulheres piedosos
Mas isso não substitui a responsabilidade comunitária
✔️ 3 — Fidelidade continua necessária
Mesmo que não evite juízo coletivo
Ela preserva identidade diante de Deus
Daniel não salvou o sistema —
mas permaneceu aprovado diante do Senhor
✔️ 4 — Esperança escatológica
A inversão criada aponta para necessidade de restauração final
Cristo é quem reconcilia:
- Deus e homem
- homem e criação
(Cl 1.20)
5) Tabela Expositiva — Ez 14.15
Elemento
Hebraico
Sentido
Teologia
Aplicação
Bestas ferozes
ḥayyāh rā‘āh
forças destrutivas
juízo pactual
consequências reais do pecado
Devastação
shikkĕlû
privar/arruinar
colapso social
pecado afeta estrutura
Desolação
shemāmāh
ruína total
reversão da bênção
necessidade de arrependimento
Terra intransitável
—
quebra da habitabilidade
ordem criada rompida
responsabilidade coletiva
Figura de Daniel
—
justiça exemplar
limite da intercessão
fidelidade pessoal continua essencial
Síntese Teológica Final
O juízo das feras em Ezequiel 14 não é mera imagem apocalíptica — é uma declaração profunda sobre a interconexão entre moralidade humana e ordem criada.
Quando a infidelidade coletiva se estabelece, a própria terra reflete essa ruptura. Daniel surge como paradigma de fidelidade individual, mas o texto insiste: justiça pessoal não substitui arrependimento coletivo.
Assim, a mensagem pastoral é equilibrada:
- Seja fiel como Daniel
- Não confie na fidelidade alheia
- Reconheça a dimensão comunitária do pecado
- Aguarde a restauração final em Cristo
II — Daniel e as feras (Ez 14.15–18)
Este segundo bloco de Ezequiel amplia o argumento iniciado com Noé: o profeta descreve um tipo distinto de juízo — o envio de feras selvagens que tornam a terra inabitável — e reafirma o mesmo princípio: nem mesmo a presença de um justo exemplar (Daniel) reverteria o decreto divino em certas circunstâncias de rebeldia coletiva.
Aqui, a teologia de Ezequiel articula dois eixos fundamentais:
1️⃣ A desordem moral produz desordem cósmica
2️⃣ A responsabilidade pessoal não é anulada por figuras espiritualmente exemplares
1) Exegese do juízo das feras (Ez 14.15)
1.1 Termos hebraicos relevantes
🔎 “bestas-feras”
- חַיָּה רָעָה (ḥayyāh rā‘āh)
- ḥayyāh: animal selvagem
- rā‘āh: mau/perigoso/destrutivo
➡️ Não são apenas animais neutros — a expressão descreve forças hostis que causam devastação.
Essa categoria aparece também nas maldições da aliança (Lv 26.22), mostrando que o juízo de Ezequiel está ancorado no padrão pactual mosaico.
🔎 “assolarem”
- שִׁכְּלוּ (shikkĕlû)
Conota privar, devastar, tornar estéril, até mesmo causar perda de filhos/vida.
➡️ O efeito não é só medo — é colapso social e populacional.
🔎 “desolada”
- שְׁמָמָה (shemāmāh)
Palavra forte em literatura profética: ruína, abandono, devastação completa.
➡️ Denota terra funcionalmente inutilizável.
🔎 “ninguém possa passar”
Expressa interrupção de rotas e circulação — linguagem típica de colapso civilizacional.
➡️ O território deixa de cumprir sua vocação de habitat humano.
2) Teologia da inversão da ordem criada
Você captou um ponto central:
em Gênesis, o homem recebe domínio sobre a criação (Gn 1.28), mas aqui vemos o contrário.
Isso revela um padrão bíblico:
- Pecado humano → ruptura da harmonia criacional
- A criação participa do drama moral humano
Essa ideia é confirmada no Novo Testamento:
- Rm 8.20–22 — criação sujeita à frustração, gemendo
- O colapso ambiental/animal em Ez 14 é sinal teológico, não apenas natural
📌 O juízo mostra que o pecado não é apenas pessoal:
ele possui dimensão ecológica, social e cósmica.
3) Daniel como paradigma de fidelidade
Embora Daniel não seja explicitamente mencionado neste versículo, ele aparece no conjunto (14.14, 20). A escolha dele é teologicamente significativa:
Por que Daniel?
- Fidelidade em ambiente pagão
- Integridade política e espiritual
- Resistência à assimilação cultural
Ele representa:
➡️ Justiça em contexto hostil
Mas o texto afirma:
Nem mesmo essa fidelidade exemplar poderia impedir o juízo coletivo decretado
Isso reforça:
- Justiça pessoal ≠ imunidade coletiva
- Santidade exemplar ≠ substituição do arrependimento comunitário
4) Aplicação pessoal e eclesial
✔️ 1 — O pecado afeta mais do que a alma
Afeta relações
Afeta sociedade
Afeta ambiente
O texto alerta contra espiritualidade individualista que ignora consequências coletivas.
✔️ 2 — Não confiar na “presença dos fiéis”
Uma igreja pode ter homens e mulheres piedosos
Mas isso não substitui a responsabilidade comunitária
✔️ 3 — Fidelidade continua necessária
Mesmo que não evite juízo coletivo
Ela preserva identidade diante de Deus
Daniel não salvou o sistema —
mas permaneceu aprovado diante do Senhor
✔️ 4 — Esperança escatológica
A inversão criada aponta para necessidade de restauração final
Cristo é quem reconcilia:
- Deus e homem
- homem e criação
(Cl 1.20)
5) Tabela Expositiva — Ez 14.15
Elemento | Hebraico | Sentido | Teologia | Aplicação |
Bestas ferozes | ḥayyāh rā‘āh | forças destrutivas | juízo pactual | consequências reais do pecado |
Devastação | shikkĕlû | privar/arruinar | colapso social | pecado afeta estrutura |
Desolação | shemāmāh | ruína total | reversão da bênção | necessidade de arrependimento |
Terra intransitável | — | quebra da habitabilidade | ordem criada rompida | responsabilidade coletiva |
Figura de Daniel | — | justiça exemplar | limite da intercessão | fidelidade pessoal continua essencial |
Síntese Teológica Final
O juízo das feras em Ezequiel 14 não é mera imagem apocalíptica — é uma declaração profunda sobre a interconexão entre moralidade humana e ordem criada.
Quando a infidelidade coletiva se estabelece, a própria terra reflete essa ruptura. Daniel surge como paradigma de fidelidade individual, mas o texto insiste: justiça pessoal não substitui arrependimento coletivo.
Assim, a mensagem pastoral é equilibrada:
- Seja fiel como Daniel
- Não confie na fidelidade alheia
- Reconheça a dimensão comunitária do pecado
- Aguarde a restauração final em Cristo
2- Daniel na cova dos leões (Dn 6.16) Então, o rei ordenou que trouxessem a Daniel e o lançassem na cova dos leões. Disse o rei a Daniel: O teu Deus, a quem tu continuamente serves, que ele te livre.
Para ilustrar, Deus chama o exemplo de Daniel, alguém que manteve sua fé viva em meio a um ambiente hostil, jogado na cova dos leões. Preso em uma cultura pagã, sob leis injustas, ele não cedeu à pressão. Quando o decreto real proibiu a oração, Daniel continuou a buscar a Deus três vezes ao dia, como sempre fizera. Isso revela a firmeza de sua integridade: sua espiritualidade não era circunstancial, mas disciplinada e constante. Essa fidelidade custou-lhe a ida à cova dos leões, mas também lhe trouxe livramento. O livro de Daniel registra que Deus enviou o Seu anjo e fechou a boca dos leões, preservando a vida de seu servo. Esse livramento, porém, foi pessoal. O testemunho de Daniel mostra que o justo pode ser protegido em meio ao perigo, mas não tem poder de livrar a terra ou a nação inteira quando o juízo divino está estabelecido. A fidelidade do profeta era suficiente para sua vida, mas não transferível a toda a coletividade.
3- A limitação de Daniel (14.18) Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, ainda que esses três homens estivessem no meio dela, não salvariam nem a seus filhos nem a suas filhas; só eles seriam salvos.
O versículo repete pela terceira vez e amplia o princípio estabelecido. Nem mesmo a presença e intercessão de Daniel, reconhecido pela sua fidelidade, poderia livrar filhos ou filhas. Isso mostra que a justiça não se herda, nem se transfere por descendência. Cada geração precisa assumir sua própria posição diante de Deus. Essa ênfase ensina que, em tempos de juízo, até mesmo os vínculos familiares não garantem proteção. O que vale é a justiça pessoal. O justo seria preservado, mas a terra continuaria assolada. Essa mensagem desconstrói qualquer ideia de proteção automática baseada na linhagem ou na presença de homens piedosos entre o povo. A repetição dessa verdade tem força pedagógica. Deus insiste no ponto porque sabia que o povo de Jerusalém estava enganado, confiando em mitos religiosos e em uma falsa segurança baseada na herança espiritual. O exemplo de Daniel mostra que a fidelidade inspira, mas não substitui o arrependimento dos outros. Cada indivíduo e cada comunidade são responsáveis diante do Senhor.
COMENTARIO EXTRA
Comentário de Hubner Braz
O desenvolvimento dessa parte usa Daniel 6 como ilustração histórica da fidelidade sob pressão e, em seguida, mostra o limite teológico estabelecido em Ezequiel 14. A chave é manter a distinção entre:
- livramento providencial individual (Deus preserva Daniel na cova), e
- juízo pactual coletivo (Deus disciplina uma “terra” que persiste em grave transgressão).
Ezequiel 14 não nega que Deus pode livrar indivíduos; afirma que a justiça do justo não substitui o arrependimento do ímpio quando o Senhor decreta juízo comunitário.
1) Daniel na cova dos leões (Dn 6.16): exegese e teologia do “serviço contínuo”
1.1 “O teu Deus, a quem tu continuamente serves” — aramaico e nuance
Daniel 6 está em aramaico (Dn 2.4b–7.28). O rei reconhece a constância de Daniel:
- “continuamente” (aramaico: ideia de regularmente / de modo constante)
- “serves” (aramaico: פְּלַח (pelach), “servir/cultar”) — termo usado tanto para serviço religioso quanto para lealdade/culto.
📌 Teologia bíblica: Daniel não tinha uma fé “reativa”; tinha uma piedade habituada (disciplina espiritual). O texto sugere que sua fidelidade não foi improvisada no dia da crise — ela era fruto de uma vida inteira de lealdade.
Referências bíblicas de apoio
- Dn 6.10 — Daniel mantém o padrão: orava três vezes ao dia “como costumava fazer”.
- Sl 55.17 — oração em rotina (“de tarde, de manhã e ao meio-dia”).
- At 2.42 — perseverança nas disciplinas espirituais (padrão apostólico).
1.2 O livramento: Deus soberano e intervenção angelical
- Dn 6.22 — “o meu Deus enviou o seu anjo e fechou a boca dos leões”.
Daniel é preservado, mas observe: o livramento é pessoal e situacional, não uma “fórmula” automática. Deus livra quando quer, como quer, e para seu propósito (testemunho ao império, vindicação do servo fiel).
Referências bíblicas paralelas
- Sl 34.7 — “o anjo do Senhor acampa-se… e os livra”.
- Hb 11.33 — “fecharam a boca dos leões” (eco de Daniel).
📌 Ponto teológico: Daniel ilustra que a fidelidade pode ser protegida em meio ao risco; mas isso não significa que Deus suspenderá todo juízo coletivo decretado para a nação.
2) A limitação de Daniel em Ezequiel 14.18: repetição pedagógica e responsabilidade pessoal
2.1 Estrutura do juramento divino
“Tão certo como eu vivo…” (Ez 14.18)
A fórmula hebraica do juramento reforça a certeza do decreto. Deus não está “ameaçando”; está sentenciando.
📌 Teologicamente, isso coloca o oráculo no campo forense: trata-se de julgamento, não de mera advertência.
2.2 “não salvariam nem a seus filhos nem a suas filhas”
Aqui o texto atinge a “segurança religiosa” mais sensível: a família e a herança.
Hebraico — pontos-chave
- “salvar/livrar” (campo do hebraico נצל (nātsal), “resgatar/arrancar”) — livramento real, não simbólico.
- “só eles seriam salvos” — a justiça é eficaz para o justo, não transferível por sangue, linhagem ou proximidade.
📌 Princípio: justiça não se herda.
Esse é um tema consonante com toda a teologia profética:
- Dt 24.16 — cada um morrerá pelo seu pecado.
- Jr 31.29–30 — cada um responde por sua própria culpa.
- Ez 18.20 — “a alma que pecar, essa morrerá”.
2.3 Relação com a “responsabilidade pessoal” em Ezequiel
Ez 14 prepara terreno para Ez 18: Deus desmonta a mentalidade de “proteção automática”:
- proteção por tradição (somos o povo do templo)
- proteção por associação (tem homens santos entre nós)
- proteção por descendência (somos filhos de alguém fiel)
➡️ Ezequiel afirma que, diante do juízo decretado, cada pessoa é chamada ao arrependimento real (Ez 14.6).
3) O juízo das feras e a lógica pactual (Lv 26.22)
O cenário das feras em Ez 14.15 está alinhado com as maldições da aliança:
- Lv 26.22 — Deus envia “feras” que despovoam a terra.
- A terra “inabitável” e “intransitável” é linguagem de colapso pactual: quando a sociedade rompe com Deus, perde estabilidade.
📌 Logo, Daniel (o justo) pode ser preservado por Deus — mas não anula o efeito pactual do juízo sobre uma comunidade obstinada.
4) Aplicação pessoal e eclesial (atualização fiel ao texto)
- Disciplina espiritual precede crise.
Daniel não inventou oração quando a lei proibiu; ele apenas continuou. A maturidade espiritual é construída antes do conflito. - Fé não é transferível por família ou igreja.
Pais piedosos, líderes piedosos e um ambiente cristão são bênção — mas não substituem conversão e arrependimento pessoais. - A fidelidade inspira, mas não substitui arrependimento coletivo.
O justo pode ser “sinal” para o povo, mas Deus exige resposta do povo. - Em tempos de juízo, Deus pode preservar indivíduos sem suspender o decreto coletivo.
Isso evita dois extremos:
- fatalismo (“nada adianta ser fiel”)
- presunção (“ser fiel garante livramento coletivo”).
5) Tabela expositiva — Dn 6.16 + Ez 14.18
Texto
Expressão
Palavra original
Ênfase teológica
Aplicação
Dn 6.16
“a quem tu continuamente serves”
(aramaico) pelach = servir/cultar
fidelidade habitual
mantenha disciplina espiritual constante
Dn 6.22
“enviou o seu anjo… fechou a boca”
(aramaico) linguagem de livramento
Deus intervém soberanamente
confiança em Deus em ambiente hostil
Ez 14.18
“Tão certo como eu vivo”
fórmula de juramento
decreto certo
leve a sério a Palavra
Ez 14.18
“não salvariam filhos nem filhas”
campo de nātsal (livrar)
justiça não se herda
cada um precisa arrepender-se
Ez 14.15–18
feras tornam a terra intransitável
ḥayyāh rā‘āh (feras destrutivas)
juízo pactual/colapso social
pecado coletivo traz efeitos coletivos
Daniel prova que Deus livra o justo e honra a fidelidade perseverante; Ezequiel 14 prova que a justiça do justo não se transforma em escudo moral para uma comunidade impenitente. A repetição “nem filhos nem filhas” desmascara a falsa segurança hereditária: cada pessoa e cada geração precisa entrar “na arca” da obediência, isto é, responder a Deus com arrependimento e fé.
O desenvolvimento dessa parte usa Daniel 6 como ilustração histórica da fidelidade sob pressão e, em seguida, mostra o limite teológico estabelecido em Ezequiel 14. A chave é manter a distinção entre:
- livramento providencial individual (Deus preserva Daniel na cova), e
- juízo pactual coletivo (Deus disciplina uma “terra” que persiste em grave transgressão).
Ezequiel 14 não nega que Deus pode livrar indivíduos; afirma que a justiça do justo não substitui o arrependimento do ímpio quando o Senhor decreta juízo comunitário.
1) Daniel na cova dos leões (Dn 6.16): exegese e teologia do “serviço contínuo”
1.1 “O teu Deus, a quem tu continuamente serves” — aramaico e nuance
Daniel 6 está em aramaico (Dn 2.4b–7.28). O rei reconhece a constância de Daniel:
- “continuamente” (aramaico: ideia de regularmente / de modo constante)
- “serves” (aramaico: פְּלַח (pelach), “servir/cultar”) — termo usado tanto para serviço religioso quanto para lealdade/culto.
📌 Teologia bíblica: Daniel não tinha uma fé “reativa”; tinha uma piedade habituada (disciplina espiritual). O texto sugere que sua fidelidade não foi improvisada no dia da crise — ela era fruto de uma vida inteira de lealdade.
Referências bíblicas de apoio
- Dn 6.10 — Daniel mantém o padrão: orava três vezes ao dia “como costumava fazer”.
- Sl 55.17 — oração em rotina (“de tarde, de manhã e ao meio-dia”).
- At 2.42 — perseverança nas disciplinas espirituais (padrão apostólico).
1.2 O livramento: Deus soberano e intervenção angelical
- Dn 6.22 — “o meu Deus enviou o seu anjo e fechou a boca dos leões”.
Daniel é preservado, mas observe: o livramento é pessoal e situacional, não uma “fórmula” automática. Deus livra quando quer, como quer, e para seu propósito (testemunho ao império, vindicação do servo fiel).
Referências bíblicas paralelas
- Sl 34.7 — “o anjo do Senhor acampa-se… e os livra”.
- Hb 11.33 — “fecharam a boca dos leões” (eco de Daniel).
📌 Ponto teológico: Daniel ilustra que a fidelidade pode ser protegida em meio ao risco; mas isso não significa que Deus suspenderá todo juízo coletivo decretado para a nação.
2) A limitação de Daniel em Ezequiel 14.18: repetição pedagógica e responsabilidade pessoal
2.1 Estrutura do juramento divino
“Tão certo como eu vivo…” (Ez 14.18)
A fórmula hebraica do juramento reforça a certeza do decreto. Deus não está “ameaçando”; está sentenciando.
📌 Teologicamente, isso coloca o oráculo no campo forense: trata-se de julgamento, não de mera advertência.
2.2 “não salvariam nem a seus filhos nem a suas filhas”
Aqui o texto atinge a “segurança religiosa” mais sensível: a família e a herança.
Hebraico — pontos-chave
- “salvar/livrar” (campo do hebraico נצל (nātsal), “resgatar/arrancar”) — livramento real, não simbólico.
- “só eles seriam salvos” — a justiça é eficaz para o justo, não transferível por sangue, linhagem ou proximidade.
📌 Princípio: justiça não se herda.
Esse é um tema consonante com toda a teologia profética:
- Dt 24.16 — cada um morrerá pelo seu pecado.
- Jr 31.29–30 — cada um responde por sua própria culpa.
- Ez 18.20 — “a alma que pecar, essa morrerá”.
2.3 Relação com a “responsabilidade pessoal” em Ezequiel
Ez 14 prepara terreno para Ez 18: Deus desmonta a mentalidade de “proteção automática”:
- proteção por tradição (somos o povo do templo)
- proteção por associação (tem homens santos entre nós)
- proteção por descendência (somos filhos de alguém fiel)
➡️ Ezequiel afirma que, diante do juízo decretado, cada pessoa é chamada ao arrependimento real (Ez 14.6).
3) O juízo das feras e a lógica pactual (Lv 26.22)
O cenário das feras em Ez 14.15 está alinhado com as maldições da aliança:
- Lv 26.22 — Deus envia “feras” que despovoam a terra.
- A terra “inabitável” e “intransitável” é linguagem de colapso pactual: quando a sociedade rompe com Deus, perde estabilidade.
📌 Logo, Daniel (o justo) pode ser preservado por Deus — mas não anula o efeito pactual do juízo sobre uma comunidade obstinada.
4) Aplicação pessoal e eclesial (atualização fiel ao texto)
- Disciplina espiritual precede crise.
Daniel não inventou oração quando a lei proibiu; ele apenas continuou. A maturidade espiritual é construída antes do conflito. - Fé não é transferível por família ou igreja.
Pais piedosos, líderes piedosos e um ambiente cristão são bênção — mas não substituem conversão e arrependimento pessoais. - A fidelidade inspira, mas não substitui arrependimento coletivo.
O justo pode ser “sinal” para o povo, mas Deus exige resposta do povo. - Em tempos de juízo, Deus pode preservar indivíduos sem suspender o decreto coletivo.
Isso evita dois extremos:
- fatalismo (“nada adianta ser fiel”)
- presunção (“ser fiel garante livramento coletivo”).
5) Tabela expositiva — Dn 6.16 + Ez 14.18
Texto | Expressão | Palavra original | Ênfase teológica | Aplicação |
Dn 6.16 | “a quem tu continuamente serves” | (aramaico) pelach = servir/cultar | fidelidade habitual | mantenha disciplina espiritual constante |
Dn 6.22 | “enviou o seu anjo… fechou a boca” | (aramaico) linguagem de livramento | Deus intervém soberanamente | confiança em Deus em ambiente hostil |
Ez 14.18 | “Tão certo como eu vivo” | fórmula de juramento | decreto certo | leve a sério a Palavra |
Ez 14.18 | “não salvariam filhos nem filhas” | campo de nātsal (livrar) | justiça não se herda | cada um precisa arrepender-se |
Ez 14.15–18 | feras tornam a terra intransitável | ḥayyāh rā‘āh (feras destrutivas) | juízo pactual/colapso social | pecado coletivo traz efeitos coletivos |
Daniel prova que Deus livra o justo e honra a fidelidade perseverante; Ezequiel 14 prova que a justiça do justo não se transforma em escudo moral para uma comunidade impenitente. A repetição “nem filhos nem filhas” desmascara a falsa segurança hereditária: cada pessoa e cada geração precisa entrar “na arca” da obediência, isto é, responder a Deus com arrependimento e fé.
III- JÓ E O SOFRIMENTO HUMANO (14.19-23)
O terceiro bloco de Ezequiel 14 mostra a dimensão mais severa do juízo: a praga e o derramamento de sangue que atingem diretamente a carne humana. Nesse contexto, o Senhor evoca a figura de Jó, lembrado por sua paciência e perseverança em meio à dor.
1- O juízo da peste e do sangue (14.19) Ou se eu enviar a peste sobre essa terra e derramar o meu furor sobre ela com sangue, para eliminar dela homens e animais.
Este versículo aprofunda o tom de gravidade. Já não se trata apenas da fome ou da presença de feras, mas da praga acompanhada de sangue, atingindo diretamente a vida humana. O juízo aqui é descrito em termos de “furor”, mostrando que não é apenas uma calamidade natural, mas um ato deliberado da justiça divina contra uma terra rebelde. A “peste” é uma referência a epidemias que devastavam cidades inteiras no mundo antigo. O acréscimo do “sangue” aponta para violência, guerra e morte em larga escala. O quadro é de devastação total: homens e animais são ceifados. Em tal cenário, Deus declara que nem mesmo os justos poderiam impedir a execução de Sua vontade.
COMENTARIO EXTRA
Comentário de Hubner Braz
Neste terceiro bloco do oráculo, Ezequiel conduz o leitor ao estágio mais severo da progressão dos juízos (fome → feras → espada/peste). O foco agora é a fragilidade direta da vida humana, e a menção de Jó como paradigma reforça o ponto central do capítulo: mesmo o justo exemplar não reverte o decreto divino quando a terra persiste na rebelião pactual.
A escolha de Jó é teologicamente rica: ele é a figura bíblica por excelência do sofrimento humano e da perseverança na fé — alguém cuja justiça não o livrou da dor, mas o sustentou nela.
1) Exegese de Ezequiel 14.19
1.1 Termos hebraicos fundamentais
🔎 “peste”
- דֶּבֶר (deber)
Termo comum para epidemia, praga mortal.
Aparece repetidamente em contextos de juízo pactual: - Lv 26.25
- Jr 21.6–7
- Ez 5.12
➡️ Não é mero fenômeno médico: é apresentado como instrumento de disciplina divina.
🔎 “derramar meu furor”
- שָׁפַךְ חֲמָתִי (shāphak ḥămātî)
- shāphak = derramar, verter
- ḥēmāh = furor, ira ardente
Imagem intensamente judicial — a ira não é caprichosa, mas resposta moral ao pecado persistente.
📌 Linguagem semelhante:
- Ez 7.8
- Ez 20.33
- Sl 79.6
🔎 “com sangue”
- בְּדָם (bedām)
Campo semântico inclui: - violência
- guerra
- morte violenta
Não se limita a doença; aponta para derramamento de vida, intensificando a cena de devastação.
🔎 “eliminar homens e animais”
A fórmula reforça abrangência total do juízo:
- Gn 7.23 (dilúvio)
- Jr 36.29
- Ez 5.17
➡️ O juízo afeta toda a ordem da vida — humana e ecológica.
2) Dimensão teológica: sofrimento e justiça divina
2.1 Progressão dos juízos
Este versículo completa o padrão clássico (cf. Ez 14.21):
1️⃣ Espada
2️⃣ Fome
3️⃣ Feras
4️⃣ Peste
Representam desintegração total da estabilidade social.
2.2 Relação com a teologia de Jó
Jó é lembrado não por evitar sofrimento, mas por permanecer fiel dentro dele.
Paralelos importantes
- Jó 1.1 — íntegro e reto
- Jó 2.7 — sofrimento físico extremo
- Tg 5.11 — exemplo de perseverança
📌 Jó demonstra:
- Justiça não é garantia contra sofrimento
- Fé autêntica resiste sem compreender totalmente
Isso reforça a tese de Ez 14:
a justiça do justo preserva sua relação com Deus — não necessariamente a sociedade ao redor.
2.3 Sofrimento coletivo vs. sofrimento individual
Ezequiel trata de juízo coletivo; Jó trata de sofrimento pessoal.
Ambos convergem em um ponto:
👉 Deus permanece soberano
👉 A fidelidade permanece possível
3) Referências bíblicas correlatas
Juízo por peste
- Nm 14.12
- 2Sm 24.15
- Jr 24.10
Ira divina derramada
- Ez 7.8
- Ap 16.1
Sofrimento justo
- Jó 19.25
- 1Pe 2.19–20
4) Aplicação pessoal e pastoral
✔️ 1 — Nem todo sofrimento é evitável
A fé não elimina toda dor; ela sustenta na dor.
✔️ 2 — A justiça pessoal não cancela consequências coletivas
O justo vive no mesmo mundo quebrado.
✔️ 3 — Deus permanece soberano sobre calamidades
O texto chama à humildade, não ao fatalismo.
✔️ 4 — Esperança cristológica
Jó antecipa Cristo:
- O Justo que sofre
- O inocente que permanece fiel
- A esperança além da morte
5) Tabela expositiva — Ez 14.19
Elemento
Termo original
Significado
Teologia
Aplicação
Peste
deber
praga mortal
juízo pactual
fragilidade humana
Derramar furor
shaphak chemah
ira judicial
justiça divina
reverência e arrependimento
Sangue
dam
violência/morte
devastação total
seriedade do pecado
Homens e animais
fórmula pactual
abrangência do juízo
ordem criada afetada
responsabilidade coletiva
Figura de Jó
paradigma
fé no sofrimento
perseverança
confiar em Deus
Síntese Teológica Final
Ezequiel 14.19 revela o ponto máximo da severidade judicial: quando Deus envia peste e derramamento de sangue, a vulnerabilidade humana torna-se absoluta. A evocação de Jó lembra que a fé autêntica não está condicionada à ausência de sofrimento, mas à permanência na confiança. Assim, o texto equilibra duas verdades:
- O juízo coletivo não é evitado pela justiça de poucos
- A fidelidade individual continua possível e significativa diante de Deus
Essa tensão encontra sua resolução plena em Cristo — o Justo que sofreu, venceu a morte e oferece esperança além de toda calamidade.
Neste terceiro bloco do oráculo, Ezequiel conduz o leitor ao estágio mais severo da progressão dos juízos (fome → feras → espada/peste). O foco agora é a fragilidade direta da vida humana, e a menção de Jó como paradigma reforça o ponto central do capítulo: mesmo o justo exemplar não reverte o decreto divino quando a terra persiste na rebelião pactual.
A escolha de Jó é teologicamente rica: ele é a figura bíblica por excelência do sofrimento humano e da perseverança na fé — alguém cuja justiça não o livrou da dor, mas o sustentou nela.
1) Exegese de Ezequiel 14.19
1.1 Termos hebraicos fundamentais
🔎 “peste”
- דֶּבֶר (deber)
Termo comum para epidemia, praga mortal.
Aparece repetidamente em contextos de juízo pactual: - Lv 26.25
- Jr 21.6–7
- Ez 5.12
➡️ Não é mero fenômeno médico: é apresentado como instrumento de disciplina divina.
🔎 “derramar meu furor”
- שָׁפַךְ חֲמָתִי (shāphak ḥămātî)
- shāphak = derramar, verter
- ḥēmāh = furor, ira ardente
Imagem intensamente judicial — a ira não é caprichosa, mas resposta moral ao pecado persistente.
📌 Linguagem semelhante:
- Ez 7.8
- Ez 20.33
- Sl 79.6
🔎 “com sangue”
- בְּדָם (bedām)
Campo semântico inclui: - violência
- guerra
- morte violenta
Não se limita a doença; aponta para derramamento de vida, intensificando a cena de devastação.
🔎 “eliminar homens e animais”
A fórmula reforça abrangência total do juízo:
- Gn 7.23 (dilúvio)
- Jr 36.29
- Ez 5.17
➡️ O juízo afeta toda a ordem da vida — humana e ecológica.
2) Dimensão teológica: sofrimento e justiça divina
2.1 Progressão dos juízos
Este versículo completa o padrão clássico (cf. Ez 14.21):
1️⃣ Espada
2️⃣ Fome
3️⃣ Feras
4️⃣ Peste
Representam desintegração total da estabilidade social.
2.2 Relação com a teologia de Jó
Jó é lembrado não por evitar sofrimento, mas por permanecer fiel dentro dele.
Paralelos importantes
- Jó 1.1 — íntegro e reto
- Jó 2.7 — sofrimento físico extremo
- Tg 5.11 — exemplo de perseverança
📌 Jó demonstra:
- Justiça não é garantia contra sofrimento
- Fé autêntica resiste sem compreender totalmente
Isso reforça a tese de Ez 14:
a justiça do justo preserva sua relação com Deus — não necessariamente a sociedade ao redor.
2.3 Sofrimento coletivo vs. sofrimento individual
Ezequiel trata de juízo coletivo; Jó trata de sofrimento pessoal.
Ambos convergem em um ponto:
👉 Deus permanece soberano
👉 A fidelidade permanece possível
3) Referências bíblicas correlatas
Juízo por peste
- Nm 14.12
- 2Sm 24.15
- Jr 24.10
Ira divina derramada
- Ez 7.8
- Ap 16.1
Sofrimento justo
- Jó 19.25
- 1Pe 2.19–20
4) Aplicação pessoal e pastoral
✔️ 1 — Nem todo sofrimento é evitável
A fé não elimina toda dor; ela sustenta na dor.
✔️ 2 — A justiça pessoal não cancela consequências coletivas
O justo vive no mesmo mundo quebrado.
✔️ 3 — Deus permanece soberano sobre calamidades
O texto chama à humildade, não ao fatalismo.
✔️ 4 — Esperança cristológica
Jó antecipa Cristo:
- O Justo que sofre
- O inocente que permanece fiel
- A esperança além da morte
5) Tabela expositiva — Ez 14.19
Elemento | Termo original | Significado | Teologia | Aplicação |
Peste | deber | praga mortal | juízo pactual | fragilidade humana |
Derramar furor | shaphak chemah | ira judicial | justiça divina | reverência e arrependimento |
Sangue | dam | violência/morte | devastação total | seriedade do pecado |
Homens e animais | fórmula pactual | abrangência do juízo | ordem criada afetada | responsabilidade coletiva |
Figura de Jó | paradigma | fé no sofrimento | perseverança | confiar em Deus |
Síntese Teológica Final
Ezequiel 14.19 revela o ponto máximo da severidade judicial: quando Deus envia peste e derramamento de sangue, a vulnerabilidade humana torna-se absoluta. A evocação de Jó lembra que a fé autêntica não está condicionada à ausência de sofrimento, mas à permanência na confiança. Assim, o texto equilibra duas verdades:
- O juízo coletivo não é evitado pela justiça de poucos
- A fidelidade individual continua possível e significativa diante de Deus
Essa tensão encontra sua resolução plena em Cristo — o Justo que sofreu, venceu a morte e oferece esperança além de toda calamidade.
2- Jó é fiel na dor [Jó 1.21) E disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!
Jó é lembrado como paradigma de fidelidade em meio ao sofrimento. Ao perder bens, filhos e saúde, ele não blasfemou contra Deus. Sua declaração se tornou simbolo de aceitação reverente diante da soberania divina: reconhecer que tudo vem das mãos do Senhor e que, mesmo em meio à perda, Ele continua sendo digno de adoração. Sua paciência foi reconhecida nas Escrituras, sendo citada em Tiago 5.11 como exemplo de perseverança. Contudo, mesmo sendo um homem íntegro e intercessor — que orava até por Seus amigos (Jó 42.10) — sua justiça não teria o poder de salvar Jerusalém. O ensino de Ezequiel é que o justo pode ser consolado em sua integridade, mas não pode transferir sua fé e sua paciência para livrar outros do juízo divino.
3- A limitação de Jó (14.20) Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, ainda que Noé, Daniel e Jó estivessem no meio dela, não salvariam nem a seu filho nem a sua filha; pela sua justiça salvariam apenas a sua própria vida.
Deus repete o princípio pela quarta vez. O justo pode ser preservado, mas não livra filhos nem filhas. Essa repetição mostra a pedagogia do Senhor: a mensagem precisava ser gravada no coração do povo. Ao citar Noé, Daniel e Jó — três referências máximas de justiça em diferentes contextos (geração corrupta, terra estrangeira e sofrimento humano) — Deus cobre todos os âmbitos possíveis, mostrando que a justiça é sempre pessoal e intransferível. A limitação da presença e da intercessão de Noé, Daniel e Jó, portanto, não anulam a misericórdia, mas revela a seriedade do pecado e a necessidade de cada um viver em obediência ao Senhor.
APLICAÇÃO PESSOAL
Não podemos depender da fé alheia. À justiça de pais, líderes ou intercessores não substitui a necessidade de pessoal com o Senhor. Cada crente deve assumir sua posição diante de Deus em santidade e obediência.
COMENTARIO EXTRA
Comentário de Hubner Braz
Ez 14.20 (Jó e o sofrimento) + Jó 1.21; Tg 5.11 — fidelidade na dor e o limite da justiça “representativa”
O texto capta a tensão central do capítulo: Jó é exemplo máximo de fidelidade em sofrimento, mas Ezequiel usa sua figura para afirmar que a justiça do justo é real, porém intransferível quando Deus decreta juízo coletivo contra uma comunidade impenitente. A mensagem pastoral é dura e misericordiosa ao mesmo tempo: Deus honra o justo, mas exige arrependimento pessoal do ímpio.
1) Jó 1.21 — exegese e teologia da reverência
“Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!”
1.1 Palavras-chave em hebraico (Jó 1.21)
a) “Nu… nu” — עָרוֹם (‘ārôm)
A repetição marca a condição humana fundamental: contingência.
Jó confessa que a vida é recebida, não possuída como direito. Essa linguagem desmonta a idolatria do controle.
b) “o Senhor deu… o Senhor tomou” — יְהוָה נָתַן… יְהוָה לָקָח (YHWH nātan… YHWH lāqaḥ)
- nātan = dar (dom)
- lāqaḥ = tomar (retirar)
Não é fatalismo frio; é teologia de soberania: Deus é Senhor tanto da provisão quanto da retirada. O ponto não é negar causas secundárias (caldeus, vento etc.), mas afirmar que nada escapa do governo divino.
c) “bendito” — בָּרוּךְ (bārûk)
Verbo de adoração: Jó transforma a dor em confissão. Ele não chama o mal de bem; ele confessa que Deus permanece digno, apesar do mal.
📌 Isso é confirmado no próprio texto:
“Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma” (Jó 1.22)
2) Jó como paradigma de perseverança: Tiago 5.11
Tiago usa Jó para ensinar perseverança em tribulação:
- “a perseverança (hypomonē) de Jó” (Tg 5.11)
ὑπομονή (hypomonē) no grego é “constância sob pressão”, não passividade. É uma firmeza que permanece fiel enquanto sofre.
E Tiago conclui com uma lente teológica:
- “o Senhor é cheio de compaixão e misericórdia” (Tg 5.11)
➡️ Ou seja: a perseverança de Jó não é estoicismo; é fé sustentada por um Deus que tem “fins” misericordiosos, mesmo quando não são visíveis no meio do processo.
3) Ezequiel 14.20 — o limite da intercessão e a responsabilidade pessoal
“Tão certo como eu vivo… ainda que Noé, Daniel e Jó estivessem no meio dela… pela sua justiça salvariam apenas a sua própria vida.”
3.1 Termos hebraicos e ênfase do texto
a) Juramento divino — “Tão certo como eu vivo”
Fórmula forense: indica sentença confirmada. Não é mera advertência; é decreto judicial.
b) “pela sua justiça” — בְּצִדְקָתָם (be-tsidqātām)
Campo semântico de:
- צֶדֶק / צְדָקָה (tsédeq / tsedāqāh) = justiça/retidão pactual.
Aqui, “justiça” é a fidelidade real diante de Deus. Ezequiel não está dizendo “ninguém é justo”; está dizendo: mesmo havendo justos, a justiça deles não funciona como transferência para terceiros.
c) “salvariam” — campo de livramento (nātsal)
O verbo de “livrar” em Ezequiel tem peso concreto: escapar da morte/juízo.
Mas o texto restringe: “apenas a sua própria vida”. A justiça preserva o justo, não absolve o impenitente.
3.2 Por que repetir pela quarta vez?
Repetição em profetas é recurso pedagógico: o povo estava ancorado em mitos de segurança:
- “Templo do Senhor” (cf. Jr 7)
- “Temos gente santa”
- “Somos descendência”
- “A presença dos justos nos cobre”
Ezequiel corta isso pela raiz: aliança não é amuleto; justiça não é hereditária; fé não é terceirizável.
Referências bíblicas em harmonia
- Dt 24.16; Jr 31.29–30; Ez 18.20 — responsabilidade pessoal.
- Ez 14.6 — o chamado central do capítulo: “Convertei-vos” (shûv).
4) Integração teológica: Jó (sofrimento) e Ezequiel (juízo)
Aqui é crucial distinguir:
- Jó: sofrimento do justo, sem relação direta com culpa específica (o livro rejeita a “teologia simplista da retribuição”).
- Ezequiel 14: juízo pactual sobre uma terra rebelde.
Ambos ensinam que:
- o justo pode sofrer;
- Deus permanece soberano;
- a fidelidade é possível;
- ninguém vive de “mérito emprestado”.
5) Aplicação pessoal e eclesial (afinada com o texto)
- Não dependa da fé de terceiros.
Pais piedosos, líderes fiéis e intercessores são bênção, mas não substituem arrependimento e obediência pessoal. - Adoração na perda é prova de maturidade espiritual.
Jó 1.21 mostra que adoração verdadeira não é condicionada ao “cenário ideal”. - Perseverança não é negar dor; é permanecer fiel com dor.
A Bíblia permite lamento (Sl 13; Jó 3), mas chama à fidelidade. - Em crises coletivas, reavalie ídolos e práticas.
Ezequiel 14 aponta que colapsos podem expor pecados estruturais e chamar ao retorno (shûv).
6) Tabela expositiva (Jó 1.21 + Ez 14.20)
Texto
Expressão
Termo original
Sentido teológico
Aplicação
Jó 1.21
“Nu saí… nu voltarei”
‘ārôm
contingência humana
humildade e desapego
Jó 1.21
“YHWH deu… YHWH tomou”
nātan / lāqaḥ
soberania providencial
confiar sem controlar
Jó 1.21
“bendito seja”
bārûk
adoração na dor
adorar apesar da perda
Tg 5.11
“perseverança”
hypomonē
constância sob pressão
firmeza no sofrimento
Ez 14.20
“pela sua justiça”
tsedāqāh
retidão pactual real
santidade pessoal
Ez 14.20
“só a si salvariam”
campo nātsal
justiça intransferível
não terceirizar fé
Jó ensina que a fé madura adora sem barganhar e persevera sob pressão; Ezequiel ensina que, diante do juízo decretado sobre a rebeldia coletiva, nem os maiores exemplos de justiça substituem o arrependimento individual. Deus honra o justo, mas chama cada pessoa e cada geração a responder por si: conversão, obediência e relacionamento pessoal com o Senhor.
Ez 14.20 (Jó e o sofrimento) + Jó 1.21; Tg 5.11 — fidelidade na dor e o limite da justiça “representativa”
O texto capta a tensão central do capítulo: Jó é exemplo máximo de fidelidade em sofrimento, mas Ezequiel usa sua figura para afirmar que a justiça do justo é real, porém intransferível quando Deus decreta juízo coletivo contra uma comunidade impenitente. A mensagem pastoral é dura e misericordiosa ao mesmo tempo: Deus honra o justo, mas exige arrependimento pessoal do ímpio.
1) Jó 1.21 — exegese e teologia da reverência
“Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!”
1.1 Palavras-chave em hebraico (Jó 1.21)
a) “Nu… nu” — עָרוֹם (‘ārôm)
A repetição marca a condição humana fundamental: contingência.
Jó confessa que a vida é recebida, não possuída como direito. Essa linguagem desmonta a idolatria do controle.
b) “o Senhor deu… o Senhor tomou” — יְהוָה נָתַן… יְהוָה לָקָח (YHWH nātan… YHWH lāqaḥ)
- nātan = dar (dom)
- lāqaḥ = tomar (retirar)
Não é fatalismo frio; é teologia de soberania: Deus é Senhor tanto da provisão quanto da retirada. O ponto não é negar causas secundárias (caldeus, vento etc.), mas afirmar que nada escapa do governo divino.
c) “bendito” — בָּרוּךְ (bārûk)
Verbo de adoração: Jó transforma a dor em confissão. Ele não chama o mal de bem; ele confessa que Deus permanece digno, apesar do mal.
📌 Isso é confirmado no próprio texto:
“Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma” (Jó 1.22)
2) Jó como paradigma de perseverança: Tiago 5.11
Tiago usa Jó para ensinar perseverança em tribulação:
- “a perseverança (hypomonē) de Jó” (Tg 5.11)
ὑπομονή (hypomonē) no grego é “constância sob pressão”, não passividade. É uma firmeza que permanece fiel enquanto sofre.
E Tiago conclui com uma lente teológica:
- “o Senhor é cheio de compaixão e misericórdia” (Tg 5.11)
➡️ Ou seja: a perseverança de Jó não é estoicismo; é fé sustentada por um Deus que tem “fins” misericordiosos, mesmo quando não são visíveis no meio do processo.
3) Ezequiel 14.20 — o limite da intercessão e a responsabilidade pessoal
“Tão certo como eu vivo… ainda que Noé, Daniel e Jó estivessem no meio dela… pela sua justiça salvariam apenas a sua própria vida.”
3.1 Termos hebraicos e ênfase do texto
a) Juramento divino — “Tão certo como eu vivo”
Fórmula forense: indica sentença confirmada. Não é mera advertência; é decreto judicial.
b) “pela sua justiça” — בְּצִדְקָתָם (be-tsidqātām)
Campo semântico de:
- צֶדֶק / צְדָקָה (tsédeq / tsedāqāh) = justiça/retidão pactual.
Aqui, “justiça” é a fidelidade real diante de Deus. Ezequiel não está dizendo “ninguém é justo”; está dizendo: mesmo havendo justos, a justiça deles não funciona como transferência para terceiros.
c) “salvariam” — campo de livramento (nātsal)
O verbo de “livrar” em Ezequiel tem peso concreto: escapar da morte/juízo.
Mas o texto restringe: “apenas a sua própria vida”. A justiça preserva o justo, não absolve o impenitente.
3.2 Por que repetir pela quarta vez?
Repetição em profetas é recurso pedagógico: o povo estava ancorado em mitos de segurança:
- “Templo do Senhor” (cf. Jr 7)
- “Temos gente santa”
- “Somos descendência”
- “A presença dos justos nos cobre”
Ezequiel corta isso pela raiz: aliança não é amuleto; justiça não é hereditária; fé não é terceirizável.
Referências bíblicas em harmonia
- Dt 24.16; Jr 31.29–30; Ez 18.20 — responsabilidade pessoal.
- Ez 14.6 — o chamado central do capítulo: “Convertei-vos” (shûv).
4) Integração teológica: Jó (sofrimento) e Ezequiel (juízo)
Aqui é crucial distinguir:
- Jó: sofrimento do justo, sem relação direta com culpa específica (o livro rejeita a “teologia simplista da retribuição”).
- Ezequiel 14: juízo pactual sobre uma terra rebelde.
Ambos ensinam que:
- o justo pode sofrer;
- Deus permanece soberano;
- a fidelidade é possível;
- ninguém vive de “mérito emprestado”.
5) Aplicação pessoal e eclesial (afinada com o texto)
- Não dependa da fé de terceiros.
Pais piedosos, líderes fiéis e intercessores são bênção, mas não substituem arrependimento e obediência pessoal. - Adoração na perda é prova de maturidade espiritual.
Jó 1.21 mostra que adoração verdadeira não é condicionada ao “cenário ideal”. - Perseverança não é negar dor; é permanecer fiel com dor.
A Bíblia permite lamento (Sl 13; Jó 3), mas chama à fidelidade. - Em crises coletivas, reavalie ídolos e práticas.
Ezequiel 14 aponta que colapsos podem expor pecados estruturais e chamar ao retorno (shûv).
6) Tabela expositiva (Jó 1.21 + Ez 14.20)
Texto | Expressão | Termo original | Sentido teológico | Aplicação |
Jó 1.21 | “Nu saí… nu voltarei” | ‘ārôm | contingência humana | humildade e desapego |
Jó 1.21 | “YHWH deu… YHWH tomou” | nātan / lāqaḥ | soberania providencial | confiar sem controlar |
Jó 1.21 | “bendito seja” | bārûk | adoração na dor | adorar apesar da perda |
Tg 5.11 | “perseverança” | hypomonē | constância sob pressão | firmeza no sofrimento |
Ez 14.20 | “pela sua justiça” | tsedāqāh | retidão pactual real | santidade pessoal |
Ez 14.20 | “só a si salvariam” | campo nātsal | justiça intransferível | não terceirizar fé |
Jó ensina que a fé madura adora sem barganhar e persevera sob pressão; Ezequiel ensina que, diante do juízo decretado sobre a rebeldia coletiva, nem os maiores exemplos de justiça substituem o arrependimento individual. Deus honra o justo, mas chama cada pessoa e cada geração a responder por si: conversão, obediência e relacionamento pessoal com o Senhor.
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