Vagabundo Confesso - Capítulo 6: Eu na Cracolândia

No capítulo anterior de Vagabundo Confesso: Eric conhece a história da maior tragédia nuclear do Brasil. Debaixo de uma ponte ele faz amizades e o papo dura até ele pegar no sono. No auge da madrugada acontece a pior chacina que ele presenciou.

Vagabundo Confesso
Capítulo 6: Cracolândia
Autor: O Varão
Escritura e revisão gramatical: Hubner Braz
Colaborador: O Divino

Ódio, sofrimento, angustia e dor... foram sentimentos que estavam dentro de mim ao ver o mar de sangue na minha frente. Nada pude fazer, a não ser, ajudar os policiais com o meu depoimento.

O melhor momento foi na morte de José. Falo isso porque antes de José fechar seus olhos para sempre me disse que
enfim encontraria a sua família. Essa esperança me fez refletir numa coisa: “Tudo acontece por algum motivo”. O semblante dele ficou marcado, com um sorriso encantador que cativava até o mais pessimista.

O sol surgiu entre as colinas, e eu parecia um daqueles imigrantes do interior que pisou pela primeira vez na cidade grande... Acontece que minha busca é integral eu gosto de ver tanto o lado A quanto o lado B.

Não me poupava em falar com as pessoas sejam elas quem for e os melhores assuntos pra mim surgiram entre prostitutas, mendigos e meninos e rua, pessoas que provaram a vida e sentem o amargo que é. E é isso que eu precisava é isso que eu buscava conhecer. Pouca gente consegue me compreender, talvez só aqueles que se sintam o suficientemente livres para enxergar além das coisas naturais da vida de um vagabundo confesso.

A verdade é que “O mundo é nosso e nós o conhecemos tão pouco”. É só fechar os olhos para surgir diante de mim as duas corcundas mais lindas e doces do Rio de Janeiro, o Pão de Açúcar; a eterna beleza das Praias na Ilha Bela de São Paulo; a doçura do crepúsculo do Jardim Botânico em Curitiba... Tesouros que ficam em nós, capital inestimável de alegria, que nenhuma desvalorização pode atingir.

Mas não é preciso ir tão longe, pois aprendi a descobrir que por toda a parte as fontes misteriosas de alegria e de beleza brotam de dentro de nós.

No dia seguinte fui a Cracolândia. Sempre pintavam pra mim a Cracolândia como lugar comercial, eles mascaravam a verdade. Só que eu queria ir além, vê, sentir e ouvir.

Por um momento, eu pensei que estava perdido, foi então que avistei dois meninos de rua e perguntei: - Olá jovens, sabes-me dizer onde fica a Rua Santa Ifigênia?

Um deles me disse: - Você pega a Rua Aurora vira à direita e pronto. Já chegará ao seu destino. Mais cuidado porque lá há essas horas é muito perigoso.

Mesmo dando calafrios em meu estômago fui assim mesmo. Sente o drama... Segui o caminho que eles me passaram e não demorou muito pra perceber que lá era o lugar que eu procurava. Por todos os lados havia pessoas, era um mar de pessoas que se encontravam naquela rua.

Fiquei observando o movimento à procura de uma pista, nem demorou um minuto para que alguém viesse em mim e pergunta-se?

- Você está procurando pedra?
- Não jovem, mas o que realmente tenho procurado é por pistas.

Ele estava meio encabulado e mesmo assim ficou um bom tempo conversando comigo. Ele não acreditava que eu estava ali apenas procurando por algo que nem eu sabia como procurar.

E o papo continuou. Minha curiosidade era olhar dentro dos olhos de cada um que estava naquele lugar. Descemos a rua conversando foi quando ele contou a história de como foi parar naquele lugar.

(Pausa Insana)
Flash Back Do Menino de Rua

Nasci na Bahia, minha família tinha uma casa de taipa na periferia de Salvador, um lugar de constante violência. Eu participava do projeto Tambor Cidadão, um projeto social que tirava os meninos da rua.

Mas não via futuro naquele projeto e o que eu queria mesmo era ganhar muito dinheiro, então fui morar em São Paulo na casa de meus primos, para trabalhar e estudar, mas acabei conhecendo o crack.

Minha família em São Paulo tentou de todas as maneiras livrarem-me deste vício, fui internado várias vezes até chegar ao ponto de eles me abandonarem, agora faz uns 3 anos que sou morador de rua.

(Continuação Insana)

Enquanto caminhávamos, ficávamos mais próximo do ápice da “Cracolândia” e eu, cada vez mais ficava estático vendo tudo aquilo a minha volta.

Quando se fala deste lugar, se pensa em “ladrões, mendigos, trombadinhas” só que não é bem assim, na verdade aquele lugar aborda a mais absurda mesclagem de pessoas. Não eram apenas meninos de rua e mendigos, mas também existem mães e não são mães que moram na rua, são mulheres bem arrumadas com o filho em baixo do braço ou segurando sua mão, playboys da classe media. Senhoras idosas, enfim..., uma espantosa diversidade.

Eu precisava de pistas, então encarei o máximo de pessoas que chamavam a minha atenção e procurei no fundo o que tinham dentro dos olhos e infelizmente não achei nada..., a tristeza tomava conta daquelas pessoas da pior forma possível, enquanto o garoto que caminhava comigo ia contando sua historia as lágrimas aos poucos iam rolando, pessoas que tinham escolhas ou talvez não, estavam ali. As viaturas policiais passavam e nada faziam, mas fazer o que também? Prender milhares de pessoas drogadas?

Eu saio daquele lugar com um ar pesado, estava completamente chocado. Ali era um lugar de podridão, são sonhos interrompidos, falta de esperança e perspectiva de vida. Não quero demostrar uma grande preocupação com a humanidade mostrando-se cheio de soluções para o mundo.

O que eu fui fazer ali foi só pra mim, precisava descobrir se lá tinha algo sobre meu passado e sabe o que descobri? Entendi como vive o ser humano que está fora da minha realidade.

A cada passo que dava eu distanciava da Cracolândia na companhia do garoto de rua que conheci, o nome dele é Adrian. Ele não queria se favorecer de mim, o que ele queria era atenção, só isso. Atenção daqueles que baixam a cabeça fingindo que é mais fácil ignorar.

Eu já estava completamente baixo astral por não encontrar nada que desvende o mistério de minha vida, comprei uma bebida e procurei algo pra fazer, avistei um anuncio no papel descrito: “Dj JC hoje no Bubu Lounge.” Sentei para terminar de beber e ir, procurei informações sobre o local e fui. Eu estava na Rua Pinheiros à procura do “Bubu Lounge”. Bubu Lounge é uma das casas de shows mais famosas da cidade de São Paulo, não sabia mais quando cheguei descobri que era GLS. Aí fui, entrei na fila que por sinal não era pequena.

Bubu lounge realmente era tudo aquilo que falavam e mais um pouco, lotada e bem diferente do convencional, as musica eram empolgantes, uma galera bonita, lugar perfeito para tentar encontrar alguma pista. Tinha que conhecer esse tal de Dj. JC.

Passando das 4h da manhã eu já estava muito louco tinha me desviado por completo e por consequência passei do limite, acabei discutindo com o Adrian por causa de besteiras e cada um foi para um canto, continuei na boate até 5h30m eu já não aguentava mais, estava muito mal, eu sentia enjoo, falta de ar e dor de cabeça...

Definitivamente aquele não era o meu lugar e acabei me decepcionando porque o Dj JC não era quem eu pensasse que fosse. Ele se chamava Jhoney Costa e nunca foi Doutor. O JC que eu procuro é Doutor.

Em fim sai da festa e fui pra rua, o Adrian nem estava mais por ali, parei em uma rua depois da boate sentei na calçada e para resolver a falta de ar desabotoei o botão da minha calça jeans e fiquei ali por uns minutos... Olhei para cima e li no Outdoor reluzente “Marcha Para Jesus Na Zona Norte não perca, será no dia 23 de Junho próximo ao campo de Marte – traga a sua família e vamos celebrar”.

- Que família? (Pensei em alta voz)

Não demorou muito para um carro parar na minha frente, o vidro estava fechado e não dava pra ver ninguém. Desviei o olhar e o carro foi embora, não demorou muito pra ele voltar, fingi que não era comigo e ele foi embora, se repetiu por mais 3 vezes, até que a 5 vez eu encarei e louco como eu estava acabei até sorrindo para o vidro escuro. Quando o carro baixa o vidro pude ver quem era, ai ela pergunta “tão sozinho, você está procurando companhia?” fiquei bobo, olha só de vagabundo confesso passei ser garoto de programa...

Será que Eric entrou no carro? Quem é a motorista do carro? Onde mora o Dr. JC? Que rumo tomou Adrian? Onde está Carla? Não perca o próximo capitulo do Vagabundo Confesso em 17 de Julho. (Passível de revisão)


Compartilhar no Google Plus

Sobre Hubner Braz

Criador, colunista e administrador do Pecador Confesso. Fascinado e apaixonado por DEUS!! Formado Bacharel em Teologia pela FATESP e F. Mêcanica pela FATEC-SP e Presbítero na A.D. Belem-Missão em Sorocaba, onde o Pastor Presidente é o Rev. Osmar José da Silva - CGADB, Tenho 1João 1:7-9 injetado na veia!.
    Blogger Comment
    Facebook Comment

0 Milhões de Confessos:

Postar um comentário

Não deixe de participar, a sua opinião é de extrema importância!

Críticas são bem vindas quando a pessoa se identifica.